Febraban Tech: A infraestrutura já mudou, mas o vocabulário do mercado ainda não

Compartilhar

O que a edição 2026 revelou sobre a distância entre o que os bancos estão construindo e o que o mercado consegue explicar

Na tarde no Auditório Febraban do Distrito Anhembi, Fabrício Tota, VP de Negócios Cripto do Mercado Bitcoin, fez uma afirmação que soaria como um paradigma em edições anteriores do evento: o Pix, sistema de pagamentos instantâneos que virou referência mundial, não conversa diretamente com o ambiente tokenizado. 

A frase foi dita no painel “Uma nova janela se abre com stablecoins”, ao lado de executivos do Itaú Unibanco, do BTG Pactual, do Citi e do Institute of International Finance (IIF), entidade global que reúne instituições financeiras de dezenas de países.

O argumento é direto: quem tokeniza um ativo denominado em reais precisa de um instrumento de liquidação também em reais. Liquidar um recebível brasileiro contra uma stablecoin de dólar insere risco cambial numa operação que não deveria tê-lo. Ou seja, o Brasil tem uma das melhores infraestruturas de pagamento do mundo e ainda não tem o trilho equivalente para a economia tokenizada que os próprios bancos estão montando.

A 36ª edição da Febraban Tech, de 24 a 26 de agosto, teve como tema oficial “Agentes inteligentes, liderança humana”, e a inteligência artificial dominou os palcos principais. Nas trilhas paralelas, com plateias menores, acontecia uma conversa mais consequente sobre o desenho da infraestrutura financeira brasileira dos próximos dez anos.

Esse artigo aborda:

  • Por que a tokenização deixou de ser pauta de nicho e virou discussão de arquitetura de mercado nos painéis da Febraban Tech 2026
  • O que os executivos de Itaú, BTG, Citi, Mercado Bitcoin e B3 apresentaram sobre stablecoins, liquidação e interoperabilidade
  • A lacuna entre o volume de investimento em tecnologia dos bancos e o volume destinado a formar pessoas capazes de operá-la

De produto isolado a trilho de liquidação

O evento cresceu 71% em área construída e ocupou mais de 42 mil metros quadrados, com seis palcos simultâneos, dois a mais que em 2025, conforme o site oficial. 

O dado que enquadra a discussão veio da Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária, conduzida pela Deloitte: os bancos brasileiros preveem investir R$ 50 bilhões em tecnologia em 2026, dos quais cerca de R$ 3 bilhões em inteligência artificial, analytics e big data e R$ 3,9 bilhões em migração para nuvem, salto de 30% em um ano, como destaca o portal Convergência Digital.

A mudança mais relevante nos painéis de ativos digitais foi de enquadramento: stablecoins e tokenização deixaram de aparecer como produtos que um banco oferece ao cliente e passaram a ser tratadas como infraestrutura, ou seja, a camada sobre a qual outros produtos rodam. 

Raphael Palacio Soares, Head IT Digital Assets do BTG Pactual, projetou que maior clareza regulatória deve acelerar a migração de fluxos institucionais nos próximos doze meses, e avaliou que esses instrumentos tendem a ganhar relevância como perna de liquidação de outros produtos, não como produtos isolados.

Larissa Moreira, gerente de Produtos Digital Assets do Itaú Unibanco, relatou que o mercado já experimenta bastante em operações cross border, transações entre países, enquanto tesouraria e caixa ainda têm valor a destravar, e resumiu a expectativa do banco em uma palavra: coexistência. Stablecoins, depósitos tokenizados e outras soluções não competiriam necessariamente entre si. É uma aposta com custo embutido, porque manter trilhos paralelos significa manter múltiplas equipes, múltiplos controles de compliance e múltiplos pontos de falha.

Driss Temsamani, Head de Digital para as Américas do Citi, levantou a pergunta estrutural do painel. Se a infraestrutura deve ficar do lado público e a proposta de valor do lado privado. Ele defendeu que a interoperabilidade precisa ser resolvida se o objetivo for construir algo inclusivo. Funciona como documentos que circulam livremente em um sistema de correios mas não transitam em outro sistema paralelo: sem padrões comuns, cada instituição constrói seu ambiente fechado e a liquidez se fragmenta em ilhas que não se comunicam.

A bolsa entra no jogo e a fronteira se desloca

O anúncio mais concreto do evento não veio de uma fintech. Luiz Masagão, vice-presidente de produtos e clientes da B3, e Marcos Vanderlei Belini, diretor da Trillia, afirmaram em painel que a bolsa pretende lançar uma tokenizadora de ativos tradicionais, começando por ações listadas que rodariam em blockchain com acesso a participantes de mercado. O exemplo dado foi um token de Petrobras conversível na ação correspondente, no mesmo livro de negociação. 

Masagão também sinalizou interesse em stablecoins operando em mercado regulado, para viabilizar pagamentos 24 horas por dia a investidores estrangeiros em outros fusos. Ou seja, a discussão sobre horário de funcionamento do mercado de capitais brasileiro deixou de ser sobre pregão e virou discussão de arquitetura de liquidação.

No painel sobre liquidez B2B do dia 24, Daniel Huang, CEO da Velaro Network, empresa de pagamentos sediada em Taiwan, formulou o contraste que mais interessa ao leitor brasileiro: o dinheiro circula muito rápido dentro do país, mas para fora um pagamento pode levar até uma semana sem que se saiba onde ele está no intervalo. 

Thiago Fagundes, do Mercado Bitcoin, e Rodrigo Stallone, da Tether, listaram os pré-requisitos para sair da experimentação, como clareza regulatória, liquidez institucional, compliance robusto e infraestrutura confiável, conforme reportado pelo Portal do Bitcoin.

Daniel Mendez-Delgado, do IIF, foi o mais cauteloso: a adoção depende das características de cada mercado, e países com pagamentos domésticos rápidos enfrentam desafios diferentes dos encontrados em operações internacionais. Traduzindo para o caso brasileiro, o Pix reduziu tanto a fricção interna que o argumento de eficiência das stablecoins quase desaparece dentro do país. O caso de uso real está na fronteira.

R$ 50 bilhões em tecnologia, R$ 29,4 milhões em formação

A lacuna mais evidente do evento aparece quando dois números da mesma pesquisa ficam lado a lado. Os bancos preveem R$ 50 bilhões em tecnologia em 2026 e estimam R$ 29,4 milhões em treinamento de profissionais em IA e IA generativa no mesmo ano, sendo uma alta de 31%, mas ainda menos de 0,06% do investimento total em tecnologia. Considerando todos os treinamentos de tecnologia, e não apenas IA, o setor aportou R$ 100,4 milhões em 2025 e capacitou 226,1 mil profissionais.

A pesquisa não isola quanto vai para formação em ativos digitais. A ausência é, ela própria, um dado: enquanto executivos de cinco instituições discutem qual camada de liquidação o país deveria construir, não existe indicador público sobre quantos profissionais do sistema financeiro brasileiro sabem explicar a diferença entre uma stablecoin, um depósito tokenizado e um token de ativo real.

Radia Perlman, engenheira da Dell Technologies e autora do algoritmo Spanning Tree, deu o argumento mais desconfortável sobre esse ponto. Ela contou que caiu numa fraude ao renovar a licença de piloto: buscou no Google, clicou no primeiro resultado e forneceu dados e cartão a um site montado por criminosos que pagavam diariamente para aparecer no topo das buscas. Para Perlman, em entrevista para a Bora Investir / B3, embora protocolos criptográficos sejam fundamentais, eles se tornam ineficazes diante do erro humano, e o cenário exige mais treinamento das pessoas do que novas alternativas tecnológicas.

Se isso vale para quem ajudou a desenhar a internet, vale para o gerente de tesouraria que vai autorizar a primeira liquidação em stablecoin da empresa. As barreiras não são só técnicas: são de idioma, porque a documentação relevante está em inglês; de cultura, porque decidir sobre infraestrutura on-chain exige repertório que não estava nos MBAs; e de responsabilidade, porque não há a quem recorrer quando uma transação irreversível é executada por engano.

O que os painéis pouco abordaram

Duas questões saíram do Anhembi como entraram. A primeira é a stablecoin de real: todos concordam que ela é necessária para a tokenização avançar, mas ainda não está claro quem a emite, sob qual lastro e com qual supervisão. A segunda é a divisão entre camada pública e privada levantada pelo Citi, decisão que, se tomada por inércia, será uma operação financeiramente e operacionalmente cara. Há ainda um trade-off importante: Tota avaliou que a regulação vai passar uma linha, deixando poucos players nativos e muitos participantes tradicionais, e um mercado mais seguro para o investidor institucional é também um mercado com menos experimentação na ponta, onde a maior parte das aplicações de cripto no Brasil nasceu.

O que ainda fica vivo após o evento

A Febraban Tech 2026 mostrou um setor que já não debate se a infraestrutura vai mudar. Bancos, bolsa, exchanges (corretoras de ativos digitais) e emissores de stablecoin discutiram detalhes de arquitetura como moeda de liquidação, camada pública versus privada, coexistência de instrumentos. Tudo só faz sentido para quem assumiu a mudança como dada e não mais como uma tendência. 

O evento mostrou um setor que destina pouco do orçamento para treinamentos e que não mede quanto investe em conhecimento sobre ativos digitais. Não foi diferente quando a internet comercial chegou ao Brasil nos anos 1990: a infraestrutura veio antes de existir gente suficiente para operá-la.