Zayra capta R$ 15 milhões e aposta na educação como infraestrutura

Compartilhar

A rodada financia o lançamento da plataforma e a estruturação da operação de conteúdo e experiência educacional. A tese por trás do aporte: a tecnologia financeira já chegou, mas quem precisa operá-la ainda precisa aprender.

Esse artigo aborda:

  • O paradoxo que a Zayra nasce para resolver: bancos que rejeitavam cripto há quatro anos hoje operam tokenização
  • Para onde vão os R$ 15 milhões: plataforma proprietária, a Inteligência Artificial ZAI e estúdio de conteúdo
  • Como funciona o método Learn, Build, Earn e o que ele promete
  • O tamanho do mercado de ativos tokenizados que cresce em múltiplos

A tecnologia chegou, as pessoas não

Há quatro anos, movimentar criptomoedas era motivo para ter a conta encerrada em um grande banco brasileiro. Hoje, esses mesmos bancos constroem plataformas próprias de tokenização, operam stablecoins (ativos digitais que buscam manter paridade com uma moeda forte, como o dólar) e treinam equipes para negociar ativos do mundo real convertidos em tokens. 

Em poucos anos, o mercado financeiro deixou de rejeitar a nova economia para reescrever a própria infraestrutura do dinheiro sobre ela. A virada foi rápida o bastante para abrir um paradoxo: a tecnologia chega a toda hora, mas a habilidade das pessoas que precisam operá-la, não.

Mesmo para quem já opera os ativos, ainda desconhece o funcionamento da infraestrutura que é utilizada por trás. É um movimento próximo ao que acontece com a Inteligência Artificial, a adoção acaba acontecendo antes do conhecimento aprofundado, porém quando tratamos de ativos digitais, um movimento errado pode causar prejuízos irreversíveis.

Os executivos encarregados dessa transição, diretores de produto, gestores de carteira, heads de inovação, advogados e contadores, não têm onde aprender. O conteúdo qualificado disponível para esse público é fragmentado: ou é técnico demais, feito para desenvolvedores, ou é raso demais, feito para quem aprende a especular. É na distância entre a velocidade da tecnologia e a barreira da formação que a Zayra nasce, e é esse o problema que a rodada anunciada agora se propõe a atacar.

Para onde vai o dinheiro

A Zayra, startup brasileira especializada em educação para blockchain e finanças digitais, concluiu uma rodada seed de R$ 15 milhões. O aporte vem dos investidores-anjo Gustavo Guedes Maniero, Ibrahim Jamhour e Edison Raposo. 

Os recursos têm destino definido: o desenvolvimento e lançamento da plataforma tecnológica proprietária, a estruturação do estúdio de produção de conteúdo e o início das gravações dos primeiros cursos com a SP Tech, faculdade paulistana de tecnologia. A escolha de concentrar o capital em produção, e não em expansão comercial, é deliberada. Antes de vender, é preciso ter o que entregar.

“A educação é a primeira camada da nova infraestrutura financeira. Não importa o tamanho da plataforma tecnológica ou a sofisticação dos ativos, sem o conhecimento, ninguém sabe operar”, diz Tito Martins. “O mercado financeiro está em transição estrutural. Quem não aprender agora vai operar no escuro.”

Learn, Build, Earn: o método antes da tecnologia

A diferença entre saber sobre a nova economia e saber operá-la é o que o método da Zayra tenta construir. Learn, Build, Earn organiza a jornada do aluno em três movimentos, e cada um responde a uma pergunta que o mercado deixa em aberto: o que é isso, como se faz e para que serve.

Learn é desmistificar. Antes de operar, é preciso entender, e o primeiro movimento transforma a sopa de siglas da nova economia em fundamento. É aqui que entra a ZAI, a inteligência artificial proprietária da Zayra. A plataforma indexa cada aula em todas as suas dimensões (vídeo, áudio, slides e materiais de apoio) e alimenta a ZAI com o mesmo contexto que o aluno tem ao assistir. Ela sabe em qual minuto o professor está e qual conceito está sendo explicado, e acompanha o comportamento do aluno para antecipar onde ele vai precisar de ajuda. Essa é uma das camadas da andragogia, a teoria da aprendizagem de adultos, que parte do princípio de que o profissional aprende melhor quando o conteúdo se conecta a problemas que ele já enfrenta.

Build é tirar o conhecimento do campo teórico. Em vez de acumular certificados, o aluno constrói projetos reais e novas frentes de negócio, com a ZAI ao lado para sugerir caminhos. Earn é o movimento em que o conhecimento vira retorno concreto: empregabilidade, promoção, empreendimento próprio ou ganhos financeiros que nascem do que se aprendeu. É o ponto em que a educação deixa de ser custo e passa a ser ativo.

Há um limite verdadeiro nessa arquitetura. Uma IA que acompanha o aluno em tempo real reduz o atrito de aprender, mas não substitui a prática em ambiente real, e nenhum curso elimina o risco de operar ativos voláteis ou de interpretar mal uma regulação em mudança. O que o método entrega é uma trilha mais clara entre entender, fazer e coletar resultados. 

O tamanho do que está em jogo

Os números do mercado ajudam a dimensionar a aposta, mas exigem leitura cuidadosa. O valor de ativos do mundo real tokenizados (RWA, de Real World Assets) em circulação on-chain, excluindo stablecoins, passa de US$ 30 bilhões, segundo o painel da RWA.xyz, plataforma de dados que acompanha o setor. 

Em março, o mesmo painel registrava US$ 26,4 bilhões, quase quatro vezes o volume de um ano antes. Ou seja, é um mercado que quadruplicou em doze meses e ainda assim cabe dentro do balanço de um único banco grande.

A projeção é que ele não caiba por muito tempo. Um estudo do Standard Chartered com a consultoria Synpulse, publicado em junho de 2024, estima que a demanda por ativos tokenizados pode chegar a US$ 30,1 trilhões até 2034. Mas a dispersão entre as projeções é grande: a McKinsey, na ponta conservadora, fala em US$ 2 trilhões até 2030. A diferença de quinze vezes não vem de dúvidas sobre a tecnologia, e sim de premissas distintas sobre a velocidade da regulação e sobre o que se conta como “tokenizado”.

Há outro dado que costuma ficar fora dos anúncios. Boa parte do valor tokenizado hoje é emitido e resgatado, não negociado. Reportagens com base nos dados da RWA.xyz mostram que muitas das maiores movimentações on-chain têm o padrão de alocações institucionais em lotes, e não de atividade de mercado secundário. A infraestrutura existe e o capital está entrando, mas a liquidez que a tokenização promete ainda precisa ser construída, ativo por ativo. É exatamente nessa construção que faltam pessoas.

“Estou no mercado financeiro há mais de 25 anos e vejo de perto a dificuldade das instituições em encontrar profissionais preparados para operar essa nova infraestrutura digital”, afirma Gustavo Guedes Maniero, investidor-anjo da Zayra. “Antes de vender tecnologia, é preciso formar quem vai operá-la. É esse o gap que a empresa se propõe a fechar.”

O que o mercado leu no anúncio

Um anúncio de captação é, por definição, uma afirmação da própria empresa. O que ele vale depende do que editores independentes decidem fazer com ele. Nas duas semanas após o comunicado, a rodada foi noticiada pela Exame, pela newsletter 100 Startups to Watch da Pequenas Empresas & Grandes Negócios, pela seção Rodadas da Semana da Bloomberg Línea, pelo IT Fórum e pelo Startupi, além de bases internacionais de dados de venture capital como a Dealroom. 

Não é um dado sobre a Zayra. É um dado sobre o problema: veículos que filtram dezenas de anúncios por semana consideraram que a lacuna de formação no mercado financeiro merecia espaço.

O contexto em que a notícia saiu importa mais do que apenas a lista de veículos. A newsletter da PEGN publicou a rodada no mesmo bloco em que reportou o levantamento da Sling Hub sobre julho: startups brasileiras captaram US$ 80,9 milhões no mês, o pior resultado desde março de 2025, e apenas 12% do volume da América Latina, atrás de México e Colômbia. 

Restringindo a rodadas de equity (troca de participação por capital), foram US$ 62 milhões, queda de 60% em relação a junho e de 79% na comparação anual. Ou seja, a tese da educação como infraestrutura recebeu capital em um momento em que o capital estava escasso. Isso não garante nada sobre a execução, mas diz algo sobre a percepção do problema.

O enquadramento da Exame é o mais revelador. A reportagem ligou a captação, por iniciativa própria, ao avanço regulatório: as regras do Banco Central para empresas que prestam serviços com ativos virtuais estão em vigor desde fevereiro de 2026, com exigências de governança, segurança, controles internos e prevenção à lavagem de dinheiro, e em julho o BC aprovou requisitos prudenciais de gerenciamento de risco e capital que passam a valer em 2027. Regulação cria obrigações, e obrigações precisam de gente treinada para cumpri-las.

Quem constrói a Zayra

Daniel Marques, Tito Martins e Claudio Yamaguchi: empresa recebeu R$ 15 milhões em rodada seed para investir em tecnologia e produção de conteúdo.

Tito Martins acumula 30 anos nos maiores bancos do Brasil e da América Latina, com passagens por Itaú Unibanco, HSBC e Banco Matrix. Liderou a reestruturação da Fininvest, que passou de deficitária à maior empresa de empréstimo para pessoas físicas do país em quatro anos, e criou o Km de Vantagens, nascido da parceria que transformou o Ipiranga em joint venture com o Itaú. Na Zayra, a fórmula é a mesma que ele usou a carreira inteira: identificar o que ainda não existe e construir.

Ao lado dele estão Claudio Yamaguchi, designer, estrategista e arquiteto metodológico com 26 anos de carreira na interseção entre tecnologia, comportamento e educação, com passagem pela Via Varejo e pela cofundação da Tera, escola de produtos digitais; Daniel Marques, desenvolvedor, especialista em blockchain desde 2016 e autor do livro Bitcoin para Iniciantes, responsável pela infraestrutura tecnológica da plataforma; e Renato Janesch, CFO com mais de 20 anos em finanças corporativas, crédito e investimentos, com passagens por Citi, DuPont e Magazine Luiza.

Zayra busca especialistas

A Zayra está expandindo sua rede de especialistas para liderar aulas, palestras, workshops, mentorias e eventos, e busca profissionais com vivência prática, não apenas teórica. 

Entre as áreas de interesse estão blockchain e protocolos base, stablecoins e pagamentos digitais, DeFi (Decentralized Finance, finanças descentralizadas), tokenização de ativos reais (RWA), NFTs e tokens de utilidade, smart contracts (contratos inteligentes), regulação e compliance cripto, identidade digital, DAOs (organizações autônomas descentralizadas) e governança on-chain, segurança e custódia de ativos, Web3 aplicada a negócios, gestão de portfólio cripto e inteligência artificial aplicada a negócios. 

A frente é conduzida por Claudio Yamaguchi, responsável pelas áreas educacional e de produto.

O que a rodada não resolve

Se a infraestrutura financeira já foi reescrita e o capital já está entrando, o que acontece com as instituições que decidirem aprender só depois?

Entre na lista de espera e participe em primeira mão do lançamento em zayra.com.