Quatro ataques, nenhuma criptografia quebrada: o que isso revela sobre custódia

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Coldcard, Trezor, Ledger e a Liquid Network falharam em camadas diferentes, em sistemas, dados, comportamento humano. Em nenhum deles, a matemática foi o problema.

Esse artigo aborda:

  • A retirada de ~US$ 320 milhões em bitcoin da Liquid Network no domingo
  • O ataque que drenou cerca de US$ 116 milhões de carteiras Coldcard sem acesso físico a nenhum dispositivo
  • O vazamento que expôs dados de quase 14 mil clientes da Trezor, incluindo brasileiros, e a ação de US$ 500 milhões contra a Ledger
  • As quatro camadas de risco da custódia de criptoativos e as perguntas que ajudam a avaliá-las

No domingo, 6 de setembro de 2026, cerca de 4 mil dos aproximadamente 4.200 bitcoins que lastreiam a Liquid Network, rede paralela do Bitcoin desenvolvida pela Blockstream e usada por corretoras para liquidar transações, foram retirados da carteira da federação que sustenta a rede, um montante na casa de US$ 320 milhões, conforme reportaram CoinDesk e Bloomberg.

Na segunda-feira, após a empresa confirmar a correção do bug, os autores, que se declaram “white hats”, hackers que exploram falhas alegando boas intenções, devolveram 3.400 BTC e retiveram cerca de 598 BTC, perto de US$ 47 milhões. Até a publicação deste artigo, a rede seguia pausada.

O caso da Liquid fecha um ciclo de pouco mais de um mês em que as principais estruturas de guarda de criptoativos foram testadas, uma a uma. A Coldcard viu um erro de firmware, programa que controla o dispositivo físico, enfraquecer as chaves de milhares de usuários. A Trezor teve dados de quase 14 mil clientes vazados por um parceiro logístico, incluindo clientes brasileiros. 

A Ledger passou a responder a uma ação coletiva de US$ 500 milhões nos Estados Unidos, que conecta vazamentos de dados a golpes de engenharia social. E agora uma federação institucional, protegida por múltiplas assinaturas, viu 95% de sua reserva vazar sem precedentes. Quatro estruturas, quatro camadas de falha. Em nenhuma delas, a matemática da criptografia foi o problema.

Três desses quatro casos envolvem carteiras de hardware (hardware wallets), pequenos dispositivos físicos criados para guardar chaves privadas de criptomoedas offline, longe de computadores conectados à internet. No vocabulário do mundo tradicional, funcionam como um cofre pessoal: em vez de deixar os ativos sob custódia de um banco ou corretora, o investidor guarda as próprias chaves. 

A promessa é eliminar o risco de contraparte, ou seja, o risco de a instituição que guarda seu dinheiro quebrar, ser hackeada ou congelar saques. Os episódios recentes mostram onde essa promessa é sensível a erros e onde outra coisa começa.

Quando o sorteio é viciado: o caso Coldcard

Toda carteira de criptomoedas nasce de uma frase-semente (seed phrase), sequência de 12 ou 24 palavras que funciona como matriz de todas as chaves privadas do usuário. A segurança dessa frase depende de um único fator: aleatoriedade. É como um cadeado cujo segredo vem de um sorteio. Se o sorteio é honesto, existem mais combinações possíveis do que qualquer computador consegue testar. Se o sorteio é viciado, o número de combinações despenca.

Foi exatamente isso que aconteceu. Segundo o advisory (comunicado de segurança) oficial da Coinkite, fabricante canadense da Coldcard, e a análise técnica da TRM Labs, um erro de configuração no firmware lançado em março de 2021 fez com que certos dispositivos gerassem as frases-semente usando um gerador de números aleatórios e previsíveis, em vez do gerador de aleatoriedade do próprio chip. 

A força efetiva das chaves caiu dos 128 bits projetados para até 40 bits nos modelos mais antigos, o que é baixo o suficiente para ser quebrado por força bruta, sem jamais ter acesso ao dispositivo físico. A falha passou mais de cinco anos despercebida, inclusive pelo fabricante.

Como o livro-razão do Bitcoin é público, o atacante pôde testar chaves candidatas contra saldos reais de forma offline, sem custo e sem limite de tentativas. As ondas de drenagem começaram em 30 de julho de 2026. A primeira levou 594 BTC, cerca de US$ 38 milhões, de perto de 500 carteiras em 25 minutos, conforme a CoinDesk, e o levantamento da Galaxy Research citado pela TRM Labs contabilizava, em meados de agosto, cerca de 1.816 BTC, na casa de US$ 116 milhões somando todas as ondas, retirados de mais de 5.200 endereços.

A resposta da Coinkite ilustra um limite estrutural do firmware: atualizar o software corrige a geração de novas seeds, mas não conserta uma seed já criada. Quem gerou a frase em versão vulnerável precisa criar uma carteira nova e transferir os fundos. Não há atalho, é obrigatório fazer esse processo de transferência manualmente. As versões corrigidas passaram a exigir entropia (medida de aleatoriedade) fornecida pelo próprio usuário: toques de tecla com ritmo imprevisível, lançamentos de dado ou de moeda, combinados à aleatoriedade do dispositivo. Ou seja, o fabricante deixou de confiar em uma única fonte de sorteio.

Quando o risco mora fora do dispositivo: o caso Trezor

Em 13 de agosto de 2026, a Trezor comunicou que a ShipMonk, empresa americana que cuida da logística de entrega de seus produtos, sofreu acesso não autorizado a sistemas com dados de pedidos.

Foram expostos 13.689 clientes de sete países: Estados Unidos, Reino Unido, Suécia, Colômbia, Brasil, Itália e Portugal, que receberam encomendas entre 10 de maio e 8 de agosto de 2026, conforme reportado pela Bloomberg e pela BleepingComputer. Nenhuma chave privada, dispositivo e sistema da própria Trezor foi comprometido.

No entanto, o vazamento é grave por outro motivo. O conjunto exposto, como nome completo, e-mail, telefone e endereço de entrega, forma o que há de mais valioso para um golpista: uma lista verificada de quem comprou uma carteira de custódia física, recentemente e onde mora. 

É como se vazasse a relação de todos os clientes que instalaram um cofre em casa no último trimestre, com endereço completo. O cofre continua intacto, mas o problema é que agora se sabe onde ele está e quem tem a chave. Um detalhe atenuou o dano: a política da Trezor de exigir que parceiros apaguem dados de pedidos 90 dias após a entrega limitou a exposição aos compradores recentes.

Quando o elo humano cede: o caso Ledger

A francesa Ledger conhece bem essa cadeia. Em 2020, um vazamento expôs dados de 270 mil usuários da empresa. Em dezembro de 2023, seu Connect Kit, biblioteca de software usada por aplicativos descentralizados para se conectar às carteiras, foi comprometido. Um ex-funcionário, que ainda mantinha acesso ao projeto, caiu em um golpe de phishing, mensagens fraudulentas que se passam por comunicações legítimas, conforme noticiou o Livecoins.

Em janeiro de 2026, a empresa registrou um novo vazamento de dados de clientes. No fim de agosto, esses episódios convergiram em uma ação coletiva aberta na Justiça federal de Nova York pedindo ao menos US$ 500 milhões em reparação. O autor, Douglas Kim, afirma ter perdido cerca de US$ 2 milhões depois que golpistas, se passando por representantes da Ledger, o induziram a fornecer informações que deram acesso às suas criptomoedas. 

A sequência descrita no processo é reveladora: os criminosos teriam localizado a vítima pelos dados vazados e usado os incidentes anteriores como pretexto do golpe. Um exemplo: “sua carteira foi comprometida, precisamos validar seus dados”. 

Repare no padrão: o dispositivo da vítima funcionou perfeitamente. A criptografia funcionou. O que falhou foi a camada humana, e ela falhou porque a camada anterior, a de proteção de dados, já havia falhado antes, entregando aos golpistas o nome, o contato e a certeza de que a vítima possuía criptomoedas.

Quando a lógica trai as chaves: o caso Liquid

A carteira da federação da Liquid é protegida por um esquema de múltiplas assinaturas (multisig) distribuídas entre instituições, justamente a arquitetura recomendada para custódia de grande porte, na qual nenhuma entidade sozinha consegue mover os fundos. 

Segundo a Blockstream, nenhuma dessas chaves foi comprometida. O atacante explorou um bug no software que decide quais pedidos de resgate de Bitcoin da rede paralela (sidechain) à rede principal são válidos, e os fundos saíram pela SideSwap, uma plataforma autorizada da própria rede. Ou seja, a vulnerabilidade estava uma camada acima das chaves: na lógica que as comanda.

O desfecho, ao menos parcial, veio por um canal incomum. Os autores negociaram publicamente por mensagens gravadas em transações do próprio Bitcoin, condicionando a devolução à correção do bug e, confirmado o patch (implementação) pela Blockstream, devolveram 3.400 BTC, o equivalente a cerca de US$ 268 milhões, mantendo perto de 598 BTC cuja situação segue indefinida. 

O rótulo de “white hat” é contestado: reter US$ 47 milhões sem acordo público se parece menos com pesquisa de segurança e mais com resgate. Para quem observa do mercado, porém, a lição independe da intenção: um multisig impecável não protege contra um erro no código que o cerca.

Quatro camadas, quatro perguntas

Lidos em conjunto, os casos desenham um mapa de riscos que qualquer profissional avaliando custódia de criptoativos deveria conhecer. A primeira camada é a do firmware e do hardware. O caso Coldcard ensina que mesmo um dispositivo desconectado depende da qualidade do software embarcado, e que acompanhar os comunicados de segurança do fabricante e manter o firmware atualizado não é apenas uma tarefa burocrática, mas obrigatória na prevenção a fraudes. Ensina também que atualização não conserta o passado: seed gerada em versão vulnerável exige a criação de uma carteira nova e a migração dos fundos.

A segunda camada é a cadeia de dados. Os casos Trezor e Ledger mostram que comprar uma carteira de hardware gera rastros, como cadastros, entregas, e-mails, e que esses rastros viram matéria-prima de golpes. Práticas como usar um e-mail dedicado para serviços de criptomoedas e evitar associar publicamente identidade e posse de criptoativos reduzem a superfície de ataque, embora não a elimine: o vazamento pode acontecer, como aconteceu, em um parceiro logístico cuja existência o cliente sequer conhecia.

A terceira camada é o comportamento. O caso Ledger se resolve, no fim, em uma regra que nenhuma tecnologia substitui: a frase-semente não deve ser digitada, fotografada, informada ou “validada” em lugar nenhum. Isso inclui sites, telefone, alguém que se apresenta como suporte do fabricante. Nenhuma empresa legítima do setor pede a seed de um cliente, em nenhuma circunstância; quem pede é, por definição, o golpe. E a urgência do tipo “sua carteira foi comprometida, aja agora” é justamente a ferramenta desenhada para impedir que a vítima pare para verificar.

A quarta camada, que o caso Liquid tornou visível, é a lógica de software que envolve as chaves, os programas que decidem o que uma assinatura autoriza. Ela importa até para quem nunca vai operar uma sidechain: qualquer serviço intermediário entre o investidor e a blockchain, de corretoras a plataformas de pagamento, carrega código com poder sobre os fundos. Perguntar quem audita esse código, com que frequência e com quais resultados públicos é o equivalente, no mundo cripto, a perguntar se o banco é fiscalizado. E a resposta nem sempre existe.

Ainda não há um modelo excelente de custódia

Nada disso significa que a custódia intermediada tradicional seja o porto seguro. O colapso da corretora FTX, em 2022, deixou clientes sem acesso a bilhões de dólares, e depósitos em corretoras de criptomoedas não contam com proteções como o FGC (Fundo Garantidor de Créditos), que cobre até R$ 250 mil por CPF em instituições bancárias brasileiras.

A escolha entre guardar as próprias chaves e delegar a guarda não é uma escolha entre risco e ausência de risco, é uma escolha entre tipos diferentes de risco. Na custódia própria, o investidor troca o risco de contraparte pelo risco operacional: não existe “esqueci minha senha”, não existe estorno, não existe mesa de suporte capaz de reverter uma transação. E o caso Liquid mostra que mesmo o meio-termo, com infraestrutura coletiva, multisig institucional, ainda carrega riscos próprios, na camada de software.

Os ataques das últimas semanas não quebraram a criptografia; contornaram-na pelas bordas. No fim, a pergunta relevante não é “qual carteira é segura”, mas outra, mais incômoda: das quatro camadas que sustentam a segurança dos seus ativos, quantas você consegue, de fato, auditar?