A aposta da Visa em duas infraestruturas de tecnologia: centralizada e descentralizada

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Com mais de 130 programas de cartões vinculados a stablecoins em 40 países e uma parceria com a Bridge para expandir a mais de 100 nações até o fim de 2026, a Visa está transformando criptomoedas estáveis em infraestrutura de pagamentos

Em 2025, a Visa e a plataforma de infraestrutura Bridge lançaram juntas um produto que parecia simples na superfície: um cartão Visa que permite gastar com stablecoins em qualquer estabelecimento que aceite a bandeira. 

A mecânica é invisível para o lojista. O cliente paga com o cartão, a Bridge converte o saldo de stablecoin para moeda local na hora da transação, e o comerciante recebe em reais, pesos ou euros, conforme comunicado oficial da Visa de 30 de abril de 2025.

Menos de um ano depois, em março de 2026, as duas empresas anunciaram a expansão do programa de 18 para mais de 100 países até o fim do ano, cobrindo Europa, Ásia-Pacífico, África e Oriente Médio. Carteiras cripto populares como MetaMask e Phantom já permitem que seus usuários gastem stablecoins diretamente de wallets (carteiras digitais) de autocustódia, sem transferir fundos para uma conta separada. 

Para entender a escala: a Visa aceita pagamentos em mais de 175 milhões de estabelecimentos comerciais no mundo. Quando uma stablecoin como USDC entra nessa rede, ela deixa de ser um ativo confinado ao universo cripto e passa a competir, na prática, com o dinheiro que já está no bolso das pessoas no mundo todo.

Neste artigo, investigamos: 

  • Como cartões co-branded funcionam na prática
  • Por que a América Latina foi o laboratório escolhido
  • Quais trade-offs essa ponte entre mundos impõe

O cartão como tradução entre dois sistemas

Imagine dois idiomas que não se entendem. De um lado, o sistema financeiro tradicional: bancos, bandeiras de cartão, câmaras de compensação, horários comerciais de segunda a sexta. 

De outro, redes blockchain que operam 24 horas, sete dias por semana, movendo valor em minutos entre qualquer lugar do mundo, sem intermediário bancário. O cartão co-branded cripto funciona como um tradutor simultâneo entre esses dois mundos ao permitir que quem possui stablecoins gaste em lojas que nunca ouviram falar de blockchain, e aos comerciantes receber em moeda local sem precisar entender o que é USDC, stablecoin lastreada em dólar emitida pela Circle.

Não se trata de um fenômeno marginal. Conforme dados divulgados pelo CEO da Visa, Ryan McInerney, em outubro de 2025, a empresa já operava mais de 130 programas de emissão de cartões vinculados a stablecoins em mais de 40 países. 

Desde 2020, a Visa facilitou mais de US$ 140 bilhões em fluxos de cripto e stablecoins, incluindo mais de US$ 100 bilhões em compras de criptoativos e mais de US$ 35 bilhões em gastos usando credenciais Visa. No quarto trimestre de 2025, os gastos com cartões vinculados a stablecoins quadruplicaram em relação ao mesmo período do ano anterior.

Para colocar em perspectiva: a Visa processou US$ 14,2 trilhões em pagamentos em 2025. O volume anualizado de liquidação em stablecoins, de US$ 4,5 bilhões no início de 2026, representa uma fração minúscula desse total de cerca de 0,03%. Mas a trajetória importa mais que o número absoluto. E a direção é clara.

América Latina como laboratório

A escolha da América Latina como mercado inicial não foi aleatória. Argentina, Colômbia, México, Peru, Equador e Chile foram os primeiros países a receber os cartões Visa vinculados a stablecoins via Bridge. 

Em economias onde a moeda local perde valor com frequência, manter saldo em dólar digital e gastar localmente resolve um problema concreto que bancos tradicionais atendem com burocracia e custos elevados. As contas em dólar exigem requisitos mínimos, as transferências internacionais cobram taxas significativas, e o acesso a câmbio nem sempre é livre.

No Brasil, a Crypto.com lançou em abril de 2025 seu cartão Visa pré-pago denominado em dólar, conforme comunicado oficial da empresa. O cartão promete transações internacionais sem IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) e recompensas de até 8% em cashback. Isso mesmo, sem IOF, porque o cartão é emitido por uma entidade em Malta e denominado em moeda estrangeira, operando sob regras diferentes das que se aplicam a cartões de crédito nacionais. 

Esse benefício tem contrapartidas: o usuário precisa fazer staking que é depositar e travar tokens CRO, a criptomoeda nativa da plataforma, para acessar os tiers mais vantajosos, expondo-se à volatilidade desse ativo.

Trade-offs que importam e o modelo híbrido

A conveniência de gastar stablecoins como dinheiro tradicional esconde complexidades que a área de marketing e vendas dos cartões raramente menciona. 

A primeira é tributária. Em muitas jurisdições, incluindo o Brasil, cada transação que converte uma criptomoeda em moeda fiat pode configurar um fato gerador de imposto, ou seja, comprar um café usando seu saldo em USDC pode, tecnicamente, gerar obrigação de reportar ganho de capital, mesmo que o valor da stablecoin não tenha variado. O tratamento fiscal ainda é ambíguo em vários países, e essa incerteza recai inteiramente sobre quem usa a solução.

A segunda é estrutural. Os cartões cripto dependem integralmente da infraestrutura da Visa para funcionar. Se a Visa decidir encerrar uma parceria, como já aconteceu com a corretora Binance em 2023 ao descontinuar em mercados europeus por questões regulatórias, o usuário perde o acesso ao gasto instantâneo. A descentralização termina onde começa a rede de pagamentos tradicional. A Bridge, por sua vez, depende de um banco parceiro, o Lead Bank, para emissão dos cartões. A cadeia de dependências é longa: stablecoin com a Bridge e Lead Bank fazendo ponte com a Visa até chegar no comerciante.

A terceira é regulatória. O GENIUS Act (Guiding and Establishing National Innovation for U.S. Stablecoins Act), sancionado pelo presidente Trump em julho de 2025, estabeleceu o primeiro arcabouço federal dos Estados Unidos para stablecoins de pagamento, exigindo reservas 1:1 em ativos líquidos e auditorias mensais. Na Europa, o MiCA (Markets in Crypto-Assets), em vigor desde 2023, impõe requisitos semelhantes. Mas na América Latina, onde esses cartões estão sendo oferecidos de forma mais agressiva, a regulamentação específica para stablecoins ainda é fragmentada. O consumidor argentino ou colombiano que adota o cartão opera nas lacunas regulatórias que os mercados desenvolvidos já começaram a preencher.

Enquanto as mudanças e transições acontecem, o modelo híbrido que integra diferentes tecnologias financeiras, fazendo pontes entre o tradicional, regulado, conhecido com a inovação das stablecoins.

Quando a liquidação migra para blockchain

A parte menos visível, e potencialmente mais transformadora, não está no cartão que o consumidor usa, mas nos bastidores. Em dezembro de 2025, a Visa lançou liquidação em USDC nos Estados Unidos, permitindo que bancos parceiros como Cross River Bank e Lead Bank acertem suas obrigações com a Visa usando stablecoins na blockchain Solana, conforme notícia oficial da Visa. 

Até novembro de 2025, o volume anualizado de liquidação em stablecoins da Visa havia alcançado US$ 3,5 bilhões. Em janeiro de 2026, esse número já tinha subido para US$ 4,5 bilhões anualizados, segundo reportagem da Reuters citada pela Cryptopolitan.

O que isso significa na prática? Liquidação é o processo pelo qual bancos, adquirentes e emissores transferem recursos entre si depois que você faz uma compra. Tradicionalmente, esse acerto acontece em dias úteis, em janelas limitadas de horário, através de sistemas bancários legados. 

Com stablecoins, a liquidação pode acontecer sete dias por semana, em minutos, com rastreabilidade completa na blockchain. O consumidor não percebe a diferença porque a experiência no ponto de venda permanece idêntica, enquanto que para os bancos e fintechs que operam esses programas, o ganho operacional em velocidade e transparência é significativo.

A Visa também está avaliando o suporte a stablecoins emitidas pela própria Bridge com moedas criadas por empresas usando a infraestrutura da plataforma, em vez de usar apenas Tether ou Circle que são as mais conhecidas. 

Se essa avaliação avançar, empresas poderão emitir suas próprias stablecoins e integrá-las diretamente a programas de cartão, controlando toda a cadeia financeira. O CEO da Bridge, Zach Abrams, descreveu a ambição em entrevista à Fortune: a meta é que empresas possam ser donas de toda a sua infraestrutura financeira.

O que isso muda e o que não muda

A narrativa de que stablecoins vão substituir redes de cartão como Visa ou Mastercard ganhou tração recente. Após o Senado americano aprovar o GENIUS Act, as ações das duas empresas caíram, mas a expansão da parceria Visa-Bridge sugere uma dinâmica diferente. 

Em vez de substituição, o que se observa é integração. Stablecoins estão sendo absorvidas pela infraestrutura existente, não a substituindo. Conforme o próprio Abrams reconheceu à Fortune: a rede de aceitação construída ao longo de 40 anos continua valiosa, com ou sem stablecoins.

Para o profissional de negócios que acompanha essa transição, o cenário exige atenção a camadas distintas. Na camada do consumidor, cartões co-branded são hoje a forma mais acessível de usar stablecoins no dia a dia, mas impõe esforços ainda desconhecidos para a maioria como tributação, staking obrigatório, dependência de plataforma. 

Na camada institucional, a liquidação on-chain está mudando como bancos e fintechs movimentam valor entre si, com implicações para tesouraria, compliance e eficiência operacional. E na camada regulatória, o GENIUS Act e o MiCA estão criando as primeiras regras do jogo, mas deixam lacunas importantes, especialmente em mercados emergentes.

A Mastercard, por sinal, não está parada. A empresa lançou recentemente integração de gastos com stablecoins nos EUA via MetaMask, espelhando a estratégia da Visa. As duas maiores redes de pagamento do mundo correm em paralelo para capturar esse mercado. A competição não é mais entre blockchain e sistema tradicional, é entre ecossistemas de pagamento que integram ambos.

Tecnologia visível ou seguir o fluxo?

Se um colombiano pagar seu almoço com um cartão Visa alimentado por USDC e o restaurante recebe em pesos sem saber que a transação passou por uma blockchain, estamos diante de adoção cripto real ou de uma embalagem tradicional para uma tecnologia que prometia eliminar intermediários?