Ações da Nasdaq tokenizadas: entenda o movimento

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A aprovação da SEC para negociação de títulos tokenizados na Nasdaq não é só um marco americano, é um sinal para bolsas e reguladores globais que já vinham se movimentando

A SEC – Securities and Exchange Commission (Comissão de Valores Móveis americana) aprovou uma mudança de regra da Nasdaq que permite a negociação de títulos em formato tokenizado, em 18 de março de 2026.

Tokenizar uma ação significa criar uma versão digital dela registrada em blockchain, a ação continua sendo a mesma, com os mesmos direitos, porém o que muda é onde e como ela é registrada.

A decisão, formalizada na Release No. 34-105047, autoriza que ações do índice Russell 1000 e ETFs (Exchange-Traded Funds), fundos negociados em bolsa, que acompanham S&P 500 e Nasdaq 100 sejam representados e negociados como tokens dentro da infraestrutura existente da bolsa.

O mecanismo funciona assim: participantes do mercado podem optar por liquidar operações em formato tokenizado através de uma instrução específica no momento da ordem. Se os requisitos de tokenização não forem atendidos, a operação segue o fluxo tradicional. 

Tokens e ações convencionais compartilham o mesmo livro de ofertas, com prioridade de execução e tratamento de dados idênticos. Os direitos dos acionistas como voto, dividendos, participação em ativos residuais permanecem inalterados.

Na prática, funciona assim: você compra 10 ações da Apple pela sua corretora. Se ela participar do piloto, essas ações podem ser registradas como tokens no sistema do DTC em vez do registro tradicional. Você não percebe a diferença. A mudança está na infraestrutura, não na experiência.

Para observadores do mercado financeiro global, a notícia não é apenas sobre o que muda nos Estados Unidos. É sobre o que ela sinaliza para um movimento já em andamento em outras jurisdições.

Neste artigo:

• SEC aprova regra que permite Nasdaq negociar ações e ETFs tokenizados

• Londres, Singapura e União Europeia já operam ou expandem infraestruturas de tokenização

• Brasil se posiciona: B3 anuncia tokenizadora própria e stablecoin para 2026

A arquitetura por trás da aprovação

A aprovação da Nasdaq é consequência de uma peça regulatória anterior. Em dezembro de 2025, a SEC emitiu uma no-action letter, carta de não ação que permite operações sem risco de enforcement (aplicação, cumprimento, execução ou fiscalização de leis, regras ou sentenças), para o DTC (Depository Trust Company), autorizando um programa piloto de tokenização.

Sem essa carta, não haveria base legal para a regra da Nasdaq funcionar. A arquitetura regulatória flui da SEC para o DTC, do DTC para a Nasdaq, e da Nasdaq para as corretoras.

O piloto cobre ações do Russell 1000 e ETFs de índices amplos, com liquidação mantida em T+1 (um dia útil após a negociação), alinhada aos padrões atuais. Não há mudança nos tipos de ordem, estratégias de roteamento, sessões de negociação ou feeds de dados. A tokenização acontece na camada de pós-negociação, não na execução, ou seja, a experiência do investidor permanece essencialmente a mesma, enquanto a diferença está nos bastidores.

É importante notar o que essa aprovação não faz: não coloca funções de back-office na blockchain pública, não elimina intermediários, não permite negociação 24/7. 

O sistema opera dentro de um circuito fechado do DTC, mantendo controle centralizado. Críticos argumentam que isso contradiz a proposta de valor de blockchains públicas como abertura e ausência de permissão. Defensores respondem que é o caminho necessário para trazer trilhões de dólares para infraestrutura on-chain de forma regulada.

Londres e Singapura: movimentos paralelos

A aprovação americana não acontece em vácuo. O London Stock Exchange Group (LSEG) vem construindo infraestrutura de tokenização há meses. 

Em setembro de 2025, lançou o DMI (Digital Markets Infrastructure), plataforma baseada na blockchain para fundos privados, desenvolvida em parceria com a Microsoft. Foi a primeira grande bolsa global a implementar um sistema do tipo. 

Em janeiro de 2026, o grupo lançou o DiSH (Digital Settlement House), permitindo a liquidação 24/7 de depósitos bancários comerciais tokenizados em múltiplas moedas.

O modelo do LSEG difere do americano em um aspecto relevante: busca interoperabilidade entre tecnologia de registro distribuído (DLT – Digital Ledger Technology) e sistemas financeiros tradicionais. A plataforma permite que ativos tokenizados e convencionais coexistam, com o objetivo declarado de melhorar liquidez em mercados privados e reduzir tempos de liquidação.

Singapura, por sua vez, opera há anos como laboratório regulatório para tokenização. O MAS (Monetary Authority of Singapore), o banco central e regulador financeiro do país, conduz o Project Guardian, programa de pilotos com instituições financeiras que já testou fundos tokenizados, títulos lastreados em ativos e bonds digitais. 

Em novembro de 2025, a gestora de investimentos Franklin Templeton e o banco DBS Bank lançaram o primeiro fundo de mercado monetário tokenizado para investidores de varejo no país. O guia revisado do MAS sobre tokenização de produtos do mercado de capitais, publicado em 2025, explicita que ativos tokenizados seguem as mesmas regras de seus equivalentes não-tokenizados.

União Europeia: expansão do regime piloto

A União Europeia também acelera. Em dezembro de 2025, a Comissão Europeia propôs expansão significativa do DLT Pilot Regime, o arcabouço que governa negociação e liquidação de instrumentos financeiros tokenizados. 

O limite de emissão total foi elevado de 6 bilhões para 100 bilhões de Euros. A restrição que permitia apenas ações de empresas com valor de mercado abaixo de 500 milhões de Euros foi removida. Provedores de serviços de criptoativos (CASPs, sob o MiCA) podem agora se qualificar para emitir títulos tokenizados.

O pacote faz parte de um esforço mais amplo de integração do mercado de capitais europeu, que inclui criação de status de operador de mercado pan-europeu e simplificação de regras para depositárias centrais. 

A revisão do DLT Pilot Regime pela ESMA (a autoridade de mercados da UE) está prevista para março de 2026, com recomendações sobre se o regime deve ser estendido, modificado ou convertido em regulação permanente.

Brasil: B3 prepara entrada no jogo

No Brasil, o mercado de tokenização atingiu R$ 4 bilhões em 2025, segundo dados da plataforma RWA Monitor. Mais de 60% das plataformas especializadas já operam sob licenças da CVM (Comissão de Valores Mobiliários). O ecossistema saiu da fase experimental e entrou em rota de escala.

A B3, a bolsa brasileira, respondeu ao movimento global. Durante o B3 Day em dezembro de 2025, a empresa anunciou planos de lançar tokenizadora própria em 2026, começando pelo mercado de ações. O modelo prevê que tokens e ações tradicionais compartilhem a mesma liquidez. Um comprador de token não saberá se está comprando de um vendedor de ação convencional. A bolsa também planeja lançar uma stablecoin própria, lastreada em reais, para viabilizar a liquidação de ativos tokenizados.

A CVM incluiu tokenização em sua agenda regulatória para 2026, com revisão das Resoluções 135 e 31 focando em mercados menores e tokenização. O objetivo declarado é tornar a regulação mais alinhada à complexidade atual e propícia à inovação.

Mercado promissor entre infraestrutura e adoção

O mercado global de ativos tokenizados (excluindo stablecoins) cresceu 380% em três anos, de US$ 5 bilhões em 2022 para US$ 24 bilhões em meados de 2025, segundo relatórios da RedStone, Gauntlet e RWA.xyz. 

Projeções variam amplamente: a consultoria McKinsey estima entre US$ 2 trilhões e US$ 4 trilhões até 2030, o banco britânico Standard Chartered projeta US$ 30 trilhões até 2034, enquanto BCG e Ripple falam em US$ 18,9 trilhões até 2033.

O que as projeções compartilham é a premissa de que clareza regulatória acelera adoção. A aprovação da SEC, combinada com movimentos em Londres, Singapura e Bruxelas, sugere que 2026 pode ser o ano em que infraestrutura tradicional e tokenizada começam a convergir de forma mais concreta.

Para o investidor brasileiro, a questão prática é outra: quando e se a B3 lançar sua tokenizadora e stablecoin, quais serão os impactos aos ativos, custos de transação e horários de negociação? 

A promessa de negociação 24/7 ainda está no horizonte, não na realidade, mas a arquitetura para torná-la possível está sendo construída agora, em múltiplas jurisdições simultaneamente.

Quando começaremos

A aprovação da Nasdaq representa um marco regulatório significativo, mas não uma transformação operacional imediata. 

O sistema continua centralizado, os intermediários permanecem, os horários de negociação não mudaram. O que mudou é a legitimação institucional da tokenização como caminho viável para mercados de capitais tradicionais.

Se a blockchain prometia desintermediação e abertura, o modelo que está emergindo é diferente: tokenização dentro de circuitos fechados, operada por incumbentes, sob supervisão regulatória estrita. É pragmático, é incremental e está acontecendo.

A questão não é mais se mercados tradicionais vão adotar infraestrutura de tokenização. É quem vai definir os padrões, quem vai capturar os benefícios de eficiência, e quem vai ficar para trás enquanto a arquitetura financeira global se reconfigura.