Computação quântica: estamos preparados para proteger as criptomoedas?

Compartilhar

Google estabelece prazo para migração de sistemas de criptografia, Ethereum responde com plano de oito anos, Bitcoin ainda permanece em observação

Em março de 2026, pesquisadores do projeto do Google Quantum AI publicaram um documento técnico que redesenhou o mapa de risco para toda a indústria de criptomoedas. 

A conclusão principal: um computador quântico avançado poderia derivar uma chave privada de Bitcoin, que são utilizadas para transações e identificação de custódia do ativo, em aproximadamente nove minutos, tempo inferior ao necessário para confirmar uma transação na rede. O paper, co-autorado com Justin Drake da Ethereum Foundation e Dan Boneh de Stanford, estima que essa capacidade exigiria menos de 500 mil qubits físicos, ou seja, uma redução de aproximadamente 20 vezes em relação às estimativas anteriores.

Para contextualizar: computadores quânticos processam informação de forma radicalmente diferente dos computadores clássicos. Enquanto computadores tradicionais processam bits como 0 ou 1, qubits (bits quânticos) podem existir em múltiplos estados simultaneamente através da chamada superposição. 

Um computador quântico com 50 qubits pode avaliar mais de um quatrilhão de estados ao mesmo tempo. O processador Sycamore do Google demonstrou essa diferença ao resolver em 200 segundos um problema que levaria 10 mil anos no supercomputador tradicional mais rápido do mundo.

A ameaça não é imediata. Computadores Quânticos Criptograficamente Relevantes (CRQC, na sigla em inglês) ainda não existem, mas o Google estabeleceu 2029 como prazo final para migrar seus próprios sistemas de autenticação para criptografia pós-quântica (PQC), sinalizando que a margem de segurança está diminuindo mais rápido do que a indústria assumia.

Neste artigo:

• Por que as novas estimativas do Google mudam o cálculo de risco para blockchains

• Como Ethereum, QRL e Solana estão se preparando para a era pós-quântica

• Por que a governança descentralizada do Bitcoin dificulta uma resposta coordenada

O novo cálculo de risco

A maioria das blockchains, incluindo Bitcoin e Ethereum, depende de criptografia de curva elíptica (ECC, na sigla em inglês) para proteger carteiras e validar transações.

Essa criptografia funciona como um cofre matemático: é computacionalmente fácil gerar uma chave pública a partir de uma chave privada, mas é praticamente impossível fazer o caminho inverso com computadores tradicionais. O algoritmo de Shor, desenvolvido em 1994, demonstrou que computadores quânticos poderiam resolver esse problema em tempo polinomial, ou seja, transformando bilhões de anos em minutos.

O whitepaper (documento técnico) do Google apresenta dois circuitos quânticos otimizados: um com menos de 1.200 qubits lógicos e 90 milhões de Toffoli gates, outro com menos de 1.450 qubits lógicos e 70 milhões de Toffoli gates. 

Em termos práticos, isso significa que o ataque poderia ser executado em poucos minutos por um computador quântico CRQC. O paper também documenta três tipos de ataque: at-rest (contra carteiras dormentes com chaves públicas expostas), on-spend (contra transações em andamento) e on-setup (contra parâmetros criptográficos fixos em protocolos).

Os números são significativos: aproximadamente 6,9 milhões de Bitcoin estão em endereços vulneráveis, incluindo cerca de 1,7 milhão de moedas da era Satoshi.

No Ethereum, as 1.000 maiores carteiras por saldo detêm aproximadamente 20,5 milhões de ETH com chaves públicas permanentemente expostas. Um computador quântico quebrando uma chave a cada nove minutos poderia processar todas essas carteiras com ETH em menos de 10 dias, com potencial de assumir cerca de 42 bilhões de dólares ou R$ 217 bilhões, na cotação do dia da escrita do artigo.

Quem está se preparando

A Ethereum Foundation trabalha em criptografia pós-quântica desde 2018. Em março de 2026, lançou o portal pq.ethereum.org consolidando oito anos de pesquisa em um plano de desenvolvimento público. 

O plano prevê quatro hard forks (atualizações que exigem consenso da rede) até 2029: o fork “I” equipará validadores com chaves públicas quantum-resistant como mecanismo de emergência; o fork “J” reduzirá custos de verificação de assinaturas pós-quânticas; os forks “L” e “M” protegerão a camada de consenso e redes Layer 2. Mais de 10 times de clientes Ethereum participam de sessões semanais de interoperabilidade testando implementações em redes de desenvolvimento.

O Quantum Resistant Ledger (QRL) representa o outro extremo do espectro: uma blockchain construída desde o início com resistência quântica. Lançada em junho de 2018, a rede utiliza o esquema de assinaturas XMSS (eXtended Merkle Signature Scheme), posteriormente reconhecido pelo NIST (Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos EUA) como seguro contra ataques quânticos. 

O trade-off é a performance: o QRL processa entre 7 e 20 transações por segundo, comparável ao Bitcoin, mas significativamente inferior a redes otimizadas para velocidade. A vantagem é não precisar migrar, já que a proteção é nativa.

O protocolo Solana adotou uma abordagem intermediária com a solução experimental Winternitz Vault, lançado em janeiro de 2025. O cofre implementa assinaturas de uso único (WOTS, Winternitz One-Time Signatures), gerando novas chaves para cada transação. A limitação: cada assinatura revela aproximadamente 50% da chave privada, exigindo que usuários fechem e reabram cofres a cada gasto. Para traders frequentes, isso adiciona fricção operacional significativa, mas oferece proteção imediata sem aguardar atualizações de protocolo.

O desafio da governança descentralizada

Bitcoin não possui um plano técnico coordenado para migração pós-quântica. Não há programa de engenharia multi-equipes, não há marcos de atualizações definidos, não há prazo final estabelecido. 

A BIP-360 (Bitcoin Improvement Proposal 360) propõe um novo tipo de saída chamado Pay-to-Merkle-Root para remover vulnerabilidades quânticas, mas a proposta não significa consenso ou adoção. Discussões ativas no fórum Delving Bitcoin apresentam ideias sobre carteiras pós-quânticas e agilidade de assinaturas, porém permanecem fragmentadas.

Nic Carter, cofundador do fundo Castle Island Ventures e um dos defensores mais proeminentes do Bitcoin, reconheceu publicamente o contraste: a abordagem do Ethereum, segundo ele, é “best in class”, enquanto Bitcoin carece de um plano técnico específico com prioridade estratégica definida. 

A diferença estrutural é que Ethereum possui a Ethereum Foundation como entidade coordenadora, enquanto o Bitcoin foi desenhado para funcionar sem autoridade central, ou seja, a mesma característica que garante resistência à censura dificulta respostas coordenadas a ameaças emergentes como a computação quântica.

Trade-offs da transição

A migração para criptografia pós-quântica não é apenas uma simples atualização de software. Chaves e assinaturas pós-quânticas são complexas e maiores: o algoritmo Dilithium-II, por exemplo, gera chaves públicas de aproximadamente 1,6 kilobytes, contra 32 bytes das chaves atuais. 

Verificar uma assinatura Dilithium é cerca de seis vezes mais lento que Ed25519 em servidores robustos tradicionais. Isso afeta o volume médio de dados que podem realmente passar pela rede em um período específico, a propagação de blocos e os requisitos de hardware para validadores.

Um problema difícil envolve ativos abandonados. Carteiras com chaves públicas expostas que não são mais gerenciadas ativamente não podem ser atualizadas para novos esquemas criptográficos. 

Se computadores quânticos atingirem a escala necessária, esses ativos ficarão vulneráveis para sempre. O paper do Google cita que uma porção significativa de gestores de criptomoedas se enquadra nessa categoria, criando uma vulnerabilidade estrutural que nenhuma atualização de protocolo pode resolver completamente.

Preparação, urgência, mas sem pânico

O próprio título do paper do Google sinaliza a postura recomendada: divulgação responsável de vulnerabilidades. 

A empresa desenvolveu um método de criptografia que permite uma parte demonstrar a outra parte da rede que determinada afirmação é verdadeira, sem revelar nenhuma informação sobre o conteúdo da afirmação. 

A ameaça é real, mas não é tão imediata. A janela de migração ainda excede o tempo necessário para implementar proteções, embora essa margem esteja cada vez mais estreita.

A questão não é se a computação quântica ameaça a criptografia da blockchain. Google, Ethereum Foundation, NIST e até defensores proeminentes do Bitcoin concordam que a ameaça é iminente. 

A questão é se três anos são suficientes para migrar protocolos globais descentralizados que não possuem autoridade central para definir prazos nem equipes coordenadas para executá-los.