Os painéis que mais importaram para quem acompanha a nova economia e o que a Zayra viu do outro lado do estande
O Web Summit Rio 2026 terminou em 11 de junho, no Riocentro, na maior edição de sua história: 40.287 participantes de mais de 100 países, 479 palestrantes, 1.572 startups e 688 investidores. Apesar dos grandes números, o que mais importa é o tom das conversas.
Quem acompanhou edições anteriores percebeu uma virada de maturidade. O debate deixou de orbitar “o que a inteligência artificial pode fazer?” para a pergunta: quem vai construir e controlar a tecnologia para ela funcionar?
É por essa porta que a Zayra entrou no evento, para entender os desafios que o mercado e os profissionais enfrentam e como a educação tem o papel estrutural para tornar projetos e negócios viáveis na nova economia.
Esse artigo aborda:
- O painel de tokenização tratou a blockchain menos como produto e mais como infraestrutura
- O lacuna de investir no exterior, debatido por um ex-diretor da CVM com executivos de mercado
- O Brasil será consumidor ou criador de tecnologia como as Inteligências Artificiais?
Tokenização: a estrela discreta do evento
O painel mais relevante para quem acompanha Web3 foi “O básico da tokenização: o que é, como funciona e por que é importante”, que reuniu Cesário Martins (CEO da Zoop) e Michael Nicklas (managing partner da Valor Capital Group), com mediação de Gustavo Ribeiro, cofundador do The Brazilian Report.
Para Martins, tokenização não é produto, é infraestrutura para simplificar o mercado de capitais, reduzir intermediários e ampliar o acesso a crédito. Como resumiu, “as pessoas não compram tecnologia. Elas compram soluções.”
Os números do painel dão a dimensão da curva. O mercado já soma cerca de US$ 500 bilhões em ativos tokenizados, dos quais 80% a 85% são stablecoins, criptomoedas atreladas a uma moeda, geralmente o dólar americano, para manter valor estável.
Parece muito, até lembrarmos que os ETFs globais, fundos de índice negociados em bolsa, movimentam algo na casa de US$ 20 trilhões. Ou seja: o tokenizado é ainda uma fração desse universo, e o peso das stablecoins sugere que o primeiro uso massivo de blockchain não é especulação, e sim movimentação de valor estável.
Nicklas trouxe o contrapeso: o avanço depende de legislação adequada, de conhecimento técnico fora do universo das finanças descentralizadas e de confiança institucional para que bancos tradicionais operem nesse ambiente. Ou seja, a tokenização não esbarra só na tecnologia. O benefício de cortar intermediários convive com o risco de operar sem as garantias jurídicas que o investidor tradicional já considera óbvias.
Vale um registro brasileiro: a própria Zoop opera a arquitetura por trás do iFood Pago e conecta mais de 800 instituições via Open Finance. Parte do debate tocou no Drex, o real digital do Banco Central, e aqui cabe contexto: o Banco Central brasileiro desligou a plataforma em novembro de 2025, após concluir que a tecnologia testada não atendia a requisitos de privacidade e segurança.
Hoje o Drex é referência histórica, não produto em operação, mas a tokenização privada, essa sim, segue avançando dentro dos fóruns de utilidade, infraestrutura e regulação.
Investir lá fora: as barreiras que ninguém vê
Outro painel trouxe um ponto que costuma passar batido. Em “Globalização de Investimentos no Varejo”, Marcel Cahen (diretor LATAM da GTN) dividiu a mesa com Otavio Yazbek, ex-diretor da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e Luis Resende, sócio da Genial.
A mensagem: democratizar o acesso a mercados globais é menos uma questão de vontade e mais de arquitetura tecnológica e regulação. Para quem quer comprar um ativo no exterior, as barreiras não são só cambiais: são tecnológicas, regulatórias e operacionais, e quase sempre invisíveis.
O usuário só enxerga a tela travada ou a taxa alta no fim. É esse atrito que a blockchain e novas infraestruturas de liquidação prometem dissolver, ainda que a ponte até lá dependa tanto de confiança institucional quanto de código. Mais pessoas conhecendo a tecnologia contribui diretamente no processo de adoção e uso, gerando demanda para que as melhorias nas soluções aconteçam.
A pergunta que rondou o Riocentro
Se há uma frase que sintetiza a edição, ela veio como provocação do especialista Marcel Nobre: o Brasil vai participar da nova economia digital apenas como consumidor, ou também como criador de tecnologia?
O país tem ativos raros como uma das maiores bases de usuários do mundo, um ecossistema fintech robusto e uma cultura de adoção acelerada, da qual o Pix é o melhor exemplo.
Mas há uma lacuna: faltam pessoas que entendam essas tecnologias a fundo para construir em cima delas, não apenas usá-las. É onde a conversa sobre infraestrutura encontra a sobre educação. De nada adianta a tecnologia ao alcance se quem decide não enxerga onde ela cria valor.
A percepção de valor e a tomada de decisão ganham mais clareza com o conhecimento não apenas da dimensão do mercado e das demandas que ele gera, mas também do potencial da tecnologia, aplicabilidade, benefícios e pensamento de longo prazo.
A Zayra do outro lado do estande
A Zayra esteve como expositora no espaço de inovação, e o estande confirmou na prática a tese do papel.
Veio uma corrente constante de profissionais curiosos para entender, de verdade, sobre o potencial da blockchain, caso de uma economista que saíra de uma palestra sobre stablecoins sem entender os mecanismos. Ela não precisava de mais entusiasmo, e sim de uma ponte entre conceito e prática, para identificar as oportunidades de aplicação na realidade atual.

Os sócios da Zayra: Claudio Yamaguchi (CPO), Daniel Marques (CTO) e Tito Martins (CEO)
Os visitantes receberam um spoiler da plataforma da Zayra, onde alunos vão aprender a tecnologia sem começar pelo “tecniquês” – linguajar técnico e complexo. A experiência vai partir do que importa para quem decide: negócios, inovação e novos modelos econômicos, em três eixos: aprender (LEARN), construir (BUILD) e ganhar (EARN).
As conversas também expuseram outras barreiras: o inglês como língua-padrão dos times globais e a insegurança de operar num campo ainda sem padrões consolidados. Traduzir complexidade em fluência é menos problema de código e mais de comunicação.
Nenhum painel fechou conclusões
Isso é honesto: os US$ 500 bilhões tokenizados ainda são pequenos diante dos mercados tradicionais. A regulação segue em construção e o recuo do Drex mostra que até bancos centrais podem recalibrar a tecnologia que vão usar.
Se o evento mostrou que a disputa pelo futuro é uma disputa por infraestrutura, ele também expôs a peça que falta no tabuleiro brasileiro: pessoas preparadas para habitar essa economia com autonomia.
A pergunta em aberto é quem vai entendê-la a ponto de decidir o que se constrói em cima dela e para quem.
