Em junho de 2026, mais de 140 das maiores empresas financeiras do mundo assinaram um dólar digital compartilhado. Isso revela uma próxima fase do dinheiro.
Para um brasileiro, “dinheiro que se move na hora, 24 horas por dia, sem taxas” não é mais o futuro. É o Pix, disponível desde 0 final de 2020. Essa constatação simples ajuda a separar entusiasmo de utilidade quando se fala em “futuro do dinheiro” e se a promessa for apenas rapidez doméstica na transação de valores, o Brasil já resolveu.
A pergunta relevante para quem toca um negócio é outra: o que o dinheiro passa a fazer quando deixa de ser só um número num registro bancário e vira um ativo que carrega regras próprias e circula em redes abertas e globais?
Essa pergunta ganhou um novo marco em 30 de junho de 2026. Mais de 140 empresas, entre elas Visa, Mastercard, Stripe, Coinbase, BNY e Standard Chartered, anunciaram o Open USD, uma stablecoin (ativo digital atrelado a uma moeda, nesse caso o dólar) pensada para movimentação global de dinheiro, segundo o comunicado oficial da Open Standard, organização que vai operá-la.
Não é o primeiro dólar digital e nem está no ar ainda: o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Mas o porte da lista sinaliza que a discussão saiu do mundo cripto e entrou na infraestrutura de pagamentos que empresas usam todos os dias.
Este artigo aborda:
- A transição do dinheiro físico para o digital e, agora, para o programável.
- O ecossistema de stablecoins em números verificáveis e sua utilidade concreta.
- O lançamento do Open USD e o que a adesão das empresas muda no modelo de negócio.
- Como Estados Unidos, Europa e Brasil estão regulando esse trilho.
De objeto físico a registro digital
O dinheiro sempre foi tecnologia. Moedas metálicas resolveram o problema de confiança quando o peso e a pureza atribuíam valor a cada troca. Mais adiante, o papel-moeda veio para substituir o metal por uma forma impressa, lastreada primeiro em ouro e depois na credibilidade do Estado.
A digitalização veio em seguida, mas de forma discreta: quando um salário cai na conta ou uma venda no cartão é aprovada, nenhum papel se move. O que muda são registros em bancos de dados de instituições reguladas. Ou seja, a maior parte do dinheiro que circula hoje já é digital há décadas, apenas guardada dentro dos sistemas bancários.
O que faltava a esse dinheiro era autonomia para ser transferido. Um saldo bancário depende do horário do banco, da rede de correspondentes, dos dias úteis. O Pix rompeu parte dessa barreira no Brasil ao oferecer liquidação instantânea a qualquer hora, e por isso virou referência mundial de pagamento em tempo real. Mas o Pix é nacional e opera dentro do trilho do real, sob o Banco Central. Ele transfere valor, não lógica, e ainda está limitado a atravessar fronteiras. É exatamente nesse limite que entra a ideia de dinheiro programável.
O que significa “dinheiro programável”
Dinheiro programável é um valor que pode carregar regras dentro de si. Em vez de depender de um intermediário para condicionar um pagamento, a própria unidade monetária circula num ambiente onde contratos inteligentes (smart contracts), programas que executam sozinhos quando certas condições são atendidas e definem o que acontece.
Um pagamento pode ser liberado apenas quando a mercadoria for confirmada, dividido automaticamente entre vários recebedores, ou disparado por uma máquina sem intervenção humana. As stablecoins são hoje o veículo mais concreto dessa ideia, porque combinam estabilidade de preço, quando cada unidade vale um dólar, com a capacidade de rodar nessas redes abertas.
Apesar dela ser também transacionada junto com as outras criptomoedas como Bitcoin, a utilidade das stablecoins não está na especulação, e sim na infraestrutura discreta dos negócios.
A Fireblocks, empresa de infraestrutura de custódia, informou que seus clientes de pagamento movimentaram, em um único trimestre, US$ 76 bilhões em pagamentos entre empresas (B2B), US$ 19 bilhões em liquidação com comerciantes e US$ 13 bilhões em repasses a criadores, autônomos e prestadores. São números da própria empresa, referentes à sua base de clientes, mas mostram onde a tecnologia já opera: tesouraria, folha internacional, liquidação entre parceiros. Um exemplo sem tanto glamour com valor real.
O ecossistema em números
O mercado de stablecoins ultrapassou US$ 310 bilhões em capitalização no início de julho de 2026, segundo o agregador de dados DefiLlama.
Para dar escala: é um valor próximo ao de uma das maiores empresas listadas do mundo, concentrado em pouquíssimos emissores. O USDT, da Tether, responde por cerca de US$ 184 bilhões (perto de 59% do mercado). O USDC, da Circle, por volta de US$ 74 bilhões. Juntas, as duas concentram aproximadamente 90% de tudo o que circula. Um domínio parecido com o que ocorre com sistemas operacionais como Android e iOS nos aparelhos smartphone.
O PYUSD, da PayPal, trouxe uma marca de varejo conhecida para o setor, ainda que com volume muito menor que o dos líderes. O DAI, criado pela MakerDAO (hoje Sky), segue outra lógica: em vez de ser lastreado em dólares num banco, é colateralizado por outras criptos e governado por regras automatizadas. Esse é um contraponto ao modelo dos emissores centralizados descritos anteriormente.
Recentemente DAI passou por rebranding para USDS, com boa parte das corretoras convertendo os saldos de um token para outro. Ou seja, mesmo dentro do rótulo “stablecoin” convivem visões opostas sobre quem deve controlar a emissão: empresa regulada (ex.: USDT) ou protocolo aberto (ex.: DAI / USDS).
Um dado dimensiona o uso real. Em 2024, o volume transferido em stablecoins alcançou cerca de US$ 27,6 trilhões, superando a soma de Visa e Mastercard no período, segundo levantamento citado pela gestora Galaxy. O número exige cautela, pois parte é movimentação entre carteiras e automações, não do varejo ou do consumidor final, mas mesmo com os ajustes de cálculo, a ordem de grandeza mostra que o setor deixou de ser nicho.
A utilidade aparece na tesouraria: o caso Visa
Nenhum exemplo traduz melhor a passagem do laboratório para a operação do que a Visa. Em 2021, a empresa fez seu primeiro teste liquidando obrigações com a stablecoin USDC.
A exchange Crypto.com, que emitia cartões Visa na Austrália, precisava vender cripto por dólar e enviar transferências internacionais que levavam dias para cobrir suas obrigações. Com o piloto, passou a enviar USDC diretamente à tesouraria da Visa, eliminando uma conversão e um prazo de fechamento, conforme comunicados da própria Visa e da Circle.
O experimento virou fundação. Em dezembro de 2025, a Visa lançou a liquidação em USDC nos Estados Unidos com os bancos Cross River e Lead Bank, sobre a rede Solana, ampliando a janela de liquidação de cinco dias úteis para sete dias por semana.
Isso mesmo: liquidar no fim de semana, quando o dinheiro tradicional fica parado. Em abril de 2026, o volume anualizado deste programa chegou a cerca de US$ 7 bilhões, rodando em nove redes diferentes, e a Visa já contabilizava mais de 130 programas de cartão ligados a stablecoins em mais de 40 países.
O ganho não é para o consumidor no caixa, pois a experiência do cartão não muda, mas para a tesouraria dos bancos, que libera capital preso no intervalo entre a compra e a liquidação.
A virada de junho: quando 140 empresas assinam o mesmo dólar
De volta ao Open USD: o que o torna relevante não é a tecnologia, e sim a mudança de modelo econômico. Nas stablecoins atuais, o emissor guarda as reservas (dólares e títulos do Tesouro americano, por exemplo) e fica com os juros que elas rendem. É uma fonte de receita robusta, sobretudo com juros altos. A proposta da Open Standard inverte isso: empresas parceiras poderão emitir e resgatar o token sem taxa e sem limite de volume. A maior parte da receita das reservas será distribuída entre elas, descontada uma taxa de administração, além da governança ficar com um conselho de parceiros, sem uma controladora única.
Na prática, isso muda o incentivo de quem distribui. Um provedor de pagamento ou uma corretora que hoje “empurra” a stablecoin de outra empresa passa a ter motivo para adotar aquela em que também ganha uma fatia.
A reação do mercado foi imediata: as ações da Circle, emissora do USDC, caíram no dia do anúncio com recuo que chegou a dois dígitos conforme o pregão avançava.
As fontes ainda divergem sobre em quais redes o Open USD vai operar. O comunicado e a conta oficial da Solana confirmam emissão nativa em Solana no lançamento, enquanto outras especulações citam Polygon, Aptos e Stellar.
As empresas Circle, Tether e PayPal não estão na lista de parceiros da Open Standard, o que posiciona o Open USD menos como consenso do setor e mais como um bloco desafiando os líderes de mercado.
A régua regulatória: Estados Unidos, Europa e Brasil
Nada disso avançaria sem sinal regulatório. Nos Estados Unidos, o GENIUS Act, lei federal para stablecoins de pagamento, foi sancionado em 18 de julho de 2025 e criou o primeiro arcabouço federal do setor. Ele exige lastro integral de 1 para 1 em ativos líquidos (dólar e títulos curtos do Tesouro), divulgação mensal da composição das reservas e proíbe o emissor de pagar juros ao portador. Também define que essas stablecoins não são valores mobiliários nem commodities, dando prioridade ao portador em caso de falência do emissor. Foi essa clareza que destravou o avanço da Visa e, agora, do Open USD.
Na Europa, o regulamento MiCA (Markets in Crypto-Assets) tem similaridades com o GENIUS Act. Desde 30 de junho de 2024, as regras específicas para stablecoins exigem que emissores mantenham reservas 1:1 em ativos líquidos, submetam-se a auditorias regulares e publiquem documentos do projeto e do funcionamento aprovados por autoridades. O regulamento veda modelos de stablecoins que não sejam pareadas a ativos líquidos, focando na proteção do mercado e estabilidade.
No Brasil, o desenho é mais recente e mais rígido. As Resoluções BCB nº 519, 520 e 521, publicadas em novembro de 2025 e em vigor desde fevereiro de 2026, trouxeram as empresas de ativos virtuais para dentro do perímetro do Banco Central como Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais (PSAVs) e enquadraram operações com stablecoins no mercado de câmbio. O capital mínimo exigido de R$ 10,8 milhões a R$ 37,2 milhões é muito superior aos € 50 mil a € 150 mil do MiCA europeu, o que revela uma escolha por estabilidade em vez de baixa barreira de entrada.
Em abril de 2026, a Resolução BCB nº 561 proibiu que provedores de câmbio eletrônico (eFX), ou seja, empresas como a Nomad e a Wise, usem stablecoins para liquidar remessas internacionais, com efeito a partir de 1º de outubro de 2026. Essa conveniência tornava o processo mais rápido e barato para transferir valores internacionalmente. A liquidação volta a exigir os mecanismos tradicionais de câmbio.
Ou seja, justamente a remessa transfronteiriça barata e rápida foi restringida, ainda que a compra e a guarda por pessoas físicas sigam permitidas. Segundo dados da Receita Federal citados na cobertura do tema, o Brasil movimenta entre US$ 6 e 8 bilhões por mês em cripto, com stablecoins em cerca de 90% do volume. Um mercado grande demais para ficar sem regra.
O que ainda não está resolvido
A tese do dinheiro programável tem contrapesos concretos. Um consórcio de mais de 140 empresas precisa provar que consegue se coordenar sem a necessidade de um emissor único. Analistas já levantaram dúvidas sobre liquidez inicial e atrito de governança com tantos interesses na mesa.
A concentração em dólar abre outra questão: um trilho global de dólar programável aprofunda a dolarização de economias emergentes, o que pode ser útil para empresas e problemático para a política monetária de países como o Brasil. E há o custo regulatório: no modelo brasileiro, quanto mais robusta a exigência de conformidade, maior a vantagem dos grandes players já estruturados sobre as startups menores que nascem para resolver problemas que os grandes nem sempre colocam como prioridade.
Também não convém confundir infraestrutura com adoção. Ter Visa, Mastercard e bancos assinando um padrão não garante que o cliente final vá usá-lo. O consumidor, como mostra a própria história dos meios de pagamento, raramente escolhe o trilho, ele escolhe a experiência que resolve a necessidade. O valor, ao menos nesta fase, está mais nas engrenagens invisíveis dos negócios do que na tela do usuário.
O dinheiro segue uma rota
A transição do dinheiro segue uma rota reconhecível: do objeto físico ao registro digital e, agora, a um ativo que carrega regras e circula em redes abertas. Para o Brasil, a parte “digital e instantânea” já é rotina graças ao Pix.
O que está em disputa é a camada seguinte: programabilidade e alcance global. É nela que se concentram tanto as oportunidades de negócio quanto os freios regulatórios. O Open USD é o sinal mais forte até aqui de que a infraestrutura financeira tradicional decidiu construir esse trilho por dentro, em vez de resistir a ele.
Quando o dinheiro passa a carregar suas próprias regras e a maior parte do valor migra para quem constrói as aplicações sobre ele, quem define essas regras?
