Tokenização de ativos reais: R$ 4 bilhões movimentados no Brasil e US$ 30 bilhões no mundo

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Precatórios, imóveis e crédito agrícola brasileiros migram para blockchain enquanto reguladores testam frameworks que podem liberar ou travar o setor

Em janeiro de 2024, a Mannah registrou ativos na casa de R$ 1 bilhão em precatórios, dívidas judiciais que os governos devem pagar, mas levam anos para liquidar, podendo ser negociados e liquidados na blockchain. 

Investidores que tradicionalmente esperariam 5-10 anos para receber puderam vender frações do direito de crédito no mercado secundário. A operação permitiu que ativos ilíquidos brasileiros se tornassem digitalmente negociáveis sem esperar mudanças legislativas abrangentes. É uma mudança de paradigma no setor econômico.

O caso ilustra a tokenização de RWA (Real World Assets ou Ativos do Mundo Real) na prática: transformar direitos sobre ativos físicos ou financeiros em tokens, permitindo fracionamento, negociação 24/7, e liquidação programática. 

O mercado brasileiro de tokenização movimentou aproximadamente R$ 4 bilhões em 2025, com crescimento de 207%, versus R$ 1,3 bilhão em 2024, segundo dados do RWA Monitor. Globalmente, o mercado atingiu US$ 30 bilhões no terceiro trimestre de 2025, conforme a InvestAx, partindo de US$ 5 bilhões em 2022.

Basicamente, a tokenização de um ativo do mundo real transforma algo concreto (um objeto físico ou algo mensurável como o dinheiro) em um ativo digital com o potencial de gerar valor globalmente. Por exemplo, uma fração de um imóvel físico pode ser negociada via contrato digital com investidores de qualquer lugar do mundo.

Anatomia do mercado global: o que está sendo tokenizado

Há um crescimento constante de tokenização de ativos do mundo real em aplicações diversas, não apenas em investimentos, mas também na dolarização, pagamento e remessa por stablecoins. 

A CoinGecko publicou um relatório em 2025 com as stablecoins baseadas em moedas fiduciárias dominando o mercado RWA com US$ 224,9 bilhões (mais de US$ 97,4 bilhões, aumento de 76% desde janeiro de 2024), seguidos por stablecoins baseadas em Commodities com US$ 1,9 bilhões (cerca de US$ 774 milhões, crescimento de 68% vs. 2024), e Treasuries tokenizadas com US$ 5,5 bilhões (valores acima de US$ 4,7 bilhões).

Dados do relatório do terceiro trimestre de 2025 da InvestAx, a distribuição por categoria mostra concentração em ativos de crédito, Tesouro e ouro:

Aproximadamente US$ 17 bilhões tokenizados em Crédito Privado
Quando a tokenização é aplicada a fundos de crédito e estruturas de financiamento de curta duração. O número mostra o apetite institucional por ativos geradores de rendimento com distribuição e eficiência operacional.

Treasuries norte americanos tokenizados para baixo risco
Os títulos do Tesouro americano permanecem como classe de ativo fundamental em finanças tokenizadas devido ao perfil de baixo risco, liquidez profunda, e relevância em ambientes de taxas elevadas. Servem como uma base colateral para fluxos de liquidação e financiamento.

Cerca de US$ 2 bilhões tokenizados em Ouro e créditos de carbono
Tokenização de ouro e créditos de carbono estão em crescimento, especialmente para uso em pagamentos, custódia e soluções de liquidez de curto prazo.

E US$ 2 bilhões tokenizados em Fundos Alternativos
Veículos institucionais como fundos tokenizados de mercado monetário (MMFs) sendo integrados em fluxos colaterais e de gestão de tesouraria.

Casos institucionais: BlackRock e Franklin Templeton

A BlackRock lançou o USD Institutional Digital Liquidity Fund (BUIDL) em 2024. Em meses, o fundo atraiu mais de US$ 500 milhões, segundo o relatório XBTO, sinalizando demanda institucional por produtos financeiros tokenizados. O produto demonstra como players tradicionais de finanças podem aproveitar tokenização para maior eficiência.

Franklin Templeton opera um fundo monetário governamental tokenizado há alguns anos, com documentação disponível em seus canais oficiais. Já a Ondo Finance oferece o fundo OUSG com exposição tokenizada a Treasuries, atraindo US$ 88 milhões em ativos, conforme a análise da NextMSC.

No Brasil: o que já está funcionando

1. Precatórios (Mannah + Hathor Network + Acura)

A tokenização de R$ 1 bilhão em precatórios (janeiro de 2024) representa o caso pioneiro brasileiro, segundo a Money Times. Precatórios são dívidas que governos devem pagar, mas frequentemente atrasam anos. A tokenização permite que credores vendam frações do direito futuro imediatamente, transformando ativo ilíquido em negociável.

2. Imóveis (Netspaces + Housi)

A tokenizadora Netspaces fechou acordo com Housi, empresa de tecnologia de moradia inteligente, visando criação e gestão de tokens atrelados a imóveis em diversas regiões do Brasil. A parceria visa desenvolver casos de uso em compra/venda, aluguel e investimentos de imóveis, com menor fricção e complicação que o modelo tradicional.

Andreas Blazoudakis, CEO da Netspaces, afirmou que “as opções com a tokenização de ativos imobiliários são infinitas”. Alexandre Frankel, CEO da Housi, acrescentou: “acreditamos com todas as nossas forças no futuro da tokenização como uma grande evolução para o mercado imobiliário, não apenas para a comercialização de imóveis, mas também para casos de uso relacionados à locação e distribuição de renda”.

O relatório da Ripio mostrou a tokenização imobiliária como principal tendência do mercado RWA na América Latina, argumentando que propriedades de fracionamento de imóveis e novos modelos de rentabilização implementados por meio da tokenização permitem que pequenos e médios investidores participem de projetos que antes estavam reservados apenas a quem dispõe de grandes capitais.

3. Agro (Agrotoken)

A Agrotoken propõe tokenização de ativos agrícolas como café, terras, açúcar e outros grãos, conforme o Panorama Crypto. O modelo possibilita a transferência de propriedade simultaneamente no mundo real e digital, facilitando a troca de grãos por dinheiro sem intermediários tradicionais, com mais velocidade, transparência e rastreabilidade.

4. Vórtx e Zuvia tokenizadoras

No cenário de ativos digitais, a Vórtx se destaca em dívida corporativa, testando a tokenização de instrumentos regulados no Sandbox da CVM. Já a Zuvia, em um caminho complementar, foca na pulverização de ativos alternativos e na desintermediação financeira, oferecendo ao mercado produtos lastreados em direitos creditórios e economia real que escapam da complexidade das grandes ofertas públicas.

Como funciona tecnicamente

A tokenização cria uma representação digital de direitos sobre ativos como um contrato digital que é registrado na rede blockchain de forma transparente, verificável e imutável. As redes têm estruturas que variam entre o tradicional e a descentralização:

Off-chain: o token serve como instrumento digital de referência enquanto direitos subjacentes e registros permanecem com terceiro fora da blockchain, usando meios legais e de custódia tradicionais. Exemplo: barras de ouro em um cofre.

On-chain: todas as informações legais sobre os ativos são embutidas no token e registradas diretamente na rede blockchain. Dessa forma o registro de propriedade fica transparente, verificável e imutável.

Híbrida: alguns dados legais ficam armazenados on-chain enquanto outras informações permanecem off-chain para mecanismos jurídicos e de regulamentação. Por exemplo, registros de propriedade ou históricos de transação podem ser registrados on-chain para transparência, enquanto documentos sensíveis e específicos ficam com custodiantes tradicionais.

Segundo o escritório de advocacia norte americano, Katten Muchin Rosenman LLP, os smart contracts podem executar regras anexadas ao token automaticamente, como protocolos de emissão/resgate, distribuição de dividendos/juros, implementação de propostas de governança, e até condições de transferência como permissões e verificações de compliance.

O problema da liquidez fantasma

A empresa de tecnologia S-Pro alerta sobre um problema estrutural da tokenização: ela não assegura liquidez real por si só. É uma ferramenta que funciona quando pareada com estratégia sólida e proposta de valor genuína. Sem criar valor de mercado de forma ativa, muitos ativos tokenizados podem ficar parados, frustrando investidores e prejudicando a credibilidade da tecnologia.

Os projetos de NFT iniciais experimentaram exatamente isso, tokens foram criados em um mercado inexistente. Muita especulação e pouca utilidade. A maioria dos players em RWA temiam repetir o erro e se misturarem a tendência de promessa vazia.

Dados da InvestAx mostram que RWAs distribuídos totalizam aproximadamente US$ 30 bilhões. A maioria dos ativos tokenizados vive em estruturas privadas, em plataformas fechadas ou permissionadas, não em DeFi aberto (estrutura de finanças descentralizadas).

Regulação brasileira: CVM abre consulta, mercado espera clareza

A Resolução 88 da CVM, criada em abril de 2022, estabeleceu arcabouço jurídico para startups captarem recursos via crowdfunding, um modelo de financiamento coletivo, onde a captação de recursos acontece com investidores sem que precise abrir o capital. Em 2023, a CVM ampliou  o escopo para incluir emissões cripto, movimento que ajudou a impulsionar o crescimento do mercado.

Em setembro de 2025, foi aberta uma consulta pública para revisar a Resolução 88 para discutir e elevar os limites de emissão, abrir espaço para novos emissores (especialmente do agro), e pavimentar criação de mercado secundário para permitir negociação de tokens entre investidores diretamente. Na data de publicação do artigo, ainda não era possível realizar venda de ativos antes do vencimento.

O Banco Central tem a intenção de regulamentar stablecoins e tokens ligados ao Drex (CBDC brasileira), enquanto a CVM afirmou no fim de 2025 que a tokenização estará entre prioridades da agenda regulatória.

Há uma lacuna crítica: ainda é necessário um sistema que confira a publicidade e confiabilidade dos tokens de bens móveis representativos. A blockchain, por mais sofisticada que seja tecnicamente, não resolve por si só os problemas jurídicos que surgem quando ativos tokenizados entram em comparação com o sistema regulado. Dessa forma, investidores institucionais hesitam em aportar volumes significativos sem garantias jurídicas tradicionais.

Riscos estruturais não resolvidos

1. Lacuna legal em custódia

Quando o token representa um imóvel físico, quem garante que o imóvel realmente existe e pertence ao emissor? É preciso contar com os mecanismos off-chain, ou seja, tradicionais que realizam a custódia, as auditorias e as formalizações legais, exatamente o tipo de intermediário que blockchain busca eliminar.

2. Fragmentação de blockchains

Análises da NextMSC mostram que a falta de interoperabilidade da blockchain restringe a escalabilidade de tokenização de RWAs. Um fundo imobiliário tokenizado na rede da Ethereum tem dificuldade em integrar com protocolos baseados em uma rede diferente como a Polygon, limitando a liquidez. É como se um documento físico pudesse transitar em um sistema de correios, mas não consegue transitar por outro sistema paralelo.

3. Vulnerabilidades de segurança

A rápida expansão de commodities tokenizadas ultrapassou o desenvolvimento de soluções seguras de custódia. Em 2024, uma plataforma DeFi de porte médio perdeu US$ 25 milhões em vulnerabilidades dos smart contracts, uma das fragilidades da tecnologia recente.

4. Valoração do ativo subjacente

O preço do token depende do valor do bem físico, que pode variar por fatores completamente fora do controle da blockchain. A safra de soja tokenizada vale menos quando a safra real enfrenta problemas. Um imóvel tokenizado deprecia se a localidade deteriora.

Frameworks regulatórios em evolução

MiCA

A MiCA (Markets in Crypto-Assets Regulation) da Europa entrou em vigor em dezembro de 2024, criando um ambiente jurídico padronizado para emissores e prestadores de serviços de criptoativos, incluindo security tokens e stablecoins, conforme a Money Times. Essa iniciativa visa, além da regulação, tornar o setor institucionalizado, transparente e seguro.

Ainda na Europa, segue em avanço o DLT-Act na Suíça que tem mecanismos bem definidos para a estruturação do mercado de ativos digitais.

GENIUS Act

Em 2025, o mercado de RWAs nos EUA cresceu 260%, ultrapassando US$ 23 bilhões, segundo o portal Money Times. O crédito privado respondeu por 58% desse volume, seguido por títulos do Tesouro (34%). A proposta da GENIUS Act é estabelecer marcos regulatórios claros para stablecoins e tokenização.

Já a SEC lançou o Project Crypto para estudar a infraestrutura de mercado on-chain, conforme a fonte InvestAx. Uma força de trabalho da Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) realizou discussões com a Associação da Indústria de Valores Mobiliário e Mercados Fianceiros (SIFMA) sobre tratamento regulatório de securities tokenizadas também com objetivo de regular e representar os interesses dos maiores bancos, corretoras e gestoras de ativos norte americanos.

Hong Kong, Singapura, UAE

Hong Kong lançou uma política nacional de incentivo à tokenização, integrando-a ao regime de licenciamento de criptoativos. Já os Emirados Árabes Unidos estão sob regime do framework VARA/FSRA com postura mais agressiva e “amigável”, onde promove incentivos e zonas francas com 0% de imposto, além de mudar a postura de reguladores não como fiscais, mas como parceiros.

Projeções: conservadoras vs otimistas

O banco britânico Standard Chartered projeta que o mercado RWA tokenizado poderia atingir US$ 30 trilhões até 2034, segundo a CoinDesk. Enquanto a McKinsey fez uma projeção mais modesta: “em cenário bullish (mercado em alta), esse valor poderia dobrar para aproximadamente US$ 4 trilhões, mas somos menos otimistas que estimativas previamente publicadas conforme nos aproximamos de meados da década”, como divulgou o portal especializado em Web3, The Defiant.

A consultoria NextMSC projetou um mercado global de RWAs tokenizadas crescendo de US$ 297 bilhões em 2024 para US$ 9,43 trilhões até 2030 com CAGR de 72,8%. 

A discrepância entre projeções conservadoras e agressivas frequentemente vem de suposições sobre regulação e interoperabilidade, mas também da alta volatilidade do mercado, no qual não é possível prever as variações.

O que falta para escalar no Brasil

Dados do Centro de Estudos Notariais (CNB/SP) projetam R$ 25 bilhões em tokenização até 2027, mas esse potencial só se realizará, e até poderá ser superado, se construirmos infraestrutura jurídica adequada, ou seja, um misto de on-chain com off-chain até a maturação do mercado, adoção e da tecnologia acontecer.

Questões não resolvidas incluem:

  • Como executar garantias quando um ativo tokenizado entra em default (ex.: calote ou inadimplência grave)?
  • Qual é a jurisdição competente quando um emissor está no Brasil, na blockchain em Ethereum, e o comprador em Singapura?
  • Que mecanismo tributário regula o ganho de capital em token RWA?
  • De quem é a responsabilidade civil quando um smart contract falha?

O incipiente mercado de R$ 4 bilhões em 2025 demonstra uma demanda verificável e o crescimento para R$ 25 bilhões exige não apenas tecnologia, exige clareza legal, padrões de custódia, e mercados secundários funcionais. Também, a confiabilidade e a adoção de instituições, empresas e público final.

Tokenização não é mágica, ela é uma ferramenta em potencial que funciona quando reguladores, custodiantes, emissores e investidores concordam sobre as regras do jogo. O Brasil tem casos práticos funcionando e precisa de mais iniciativas estruturadas para colocar mais utilidade no mercado.