Coinbase paga em stablecoins. JPMorgan tokeniza depósitos. Deel envia salários via MoonPay. A fronteira de trabalho virou história quando empresas têm diferentes iniciativas com as infraestruturas tradicionais e descentralizadas
Em fevereiro de 2026, a Deel, plataforma de RH e folha de pagamento global usada por mais de 40 mil empresas em 150 países, anunciou parceria com a MoonPay para permitir que trabalhadores na Europa e no Reino Unido recebam salários em stablecoins (moedas digitais pareadas ao dólar/Euro).
A Deel processa cerca de US$ 22 bilhões por ano em folha de pagamento, conforme dados divulgados pela própria empresa em outubro de 2025. Não se trata de uma startup de criptomoedas experimentando uma inovação: é uma empresa de infraestrutura de trabalho que concluiu que pagamento via blockchain deixou de ser exceção.
Semanas antes, em janeiro, Toku, Aleo e Paxos Labs anunciaram a primeira solução de folha de pagamento em stablecoins com privacidade por padrão, usando provas de conhecimento zero (zero-knowledge proofs, tecnologia criptográfica que permite verificar transações sem revelar os dados envolvidos). A motivação: resolver uma objeção recorrente de diretores financeiros em adotar as tecnologias emergentes. Ken O’Friel, CEO da Toku, resumiu em comunicado oficial: todo CFO de empresa listada se empolga com stablecoins até perceber que a folha de pagamento ficaria visível na blockchain.
Na outra ponta do espectro, o banco JPMorgan lançou o JPM Coin (ticker: JPMD), o primeiro deposit token (representação digital de depósito bancário) emitido por um banco em blockchain pública, disponível na Base, rede Layer 2 (camada secundária de processamento) do ecossistema Coinbase. Desde sua criação, a plataforma blockchain do JPMorgan, hoje chamada Kinexys, processou mais de US$ 1,5 trilhão.
O que esse artigo aborda:
- Empresas tradicionais adicionam trilhos blockchain e isso muda empregos
- Empresas cripto-nativas estão adicionando estrutura corporativa tradicional
- Quais funções migram para blockchain e quais permanecem centralizadas?
A metáfora do terceiro trilho
Quando as empresas começaram a aceitar cartão de crédito nos anos 1970, não deixaram de aceitar dinheiro, adicionaram um novo trilho de pagamento. Stablecoins funcionam como um terceiro trilho: moeda local, cartão, blockchain. A empresa que opera nos três tem mais opções logísticas, mais alcance geográfico e, em tese, menor custo de transação internacional, podendo contratar força de trabalho no mundo todo, mas também enfrenta mais complexidade fiscal, regulatória e operacional.
Dados recentes dimensionam a velocidade dessa integração. Relatório conjunto da McKinsey com a Artemis Analytics, publicado em fevereiro de 2026, estima que pagamentos reais em stablecoins, excluindo movimentações internas de carteiras, arbitragem e gerenciamento de liquidez, alcançaram cerca de US$ 390 bilhões anualizados em 2025, o dobro do volume de 2024.
Desse total, aproximadamente 60% (US$ 226 bilhões) correspondem a pagamentos B2B, um crescimento de 733% em relação ao ano anterior.
Para contextualizar: US$ 390 bilhões representam apenas 0,02% do volume global de pagamentos, ou seja, a adoção ainda é marginal em termos absolutos, No entanto, a taxa de crescimento indica que o uso corporativo de stablecoins está saindo da fase experimental.
Esse movimento proporciona uma dinâmica diferente para trabalho e emprego. Não há mais barreiras tecnológicas para pagamento e remuneração.
Deel e MoonPay: stablecoin como extensão de plataforma HR
A parceria Deel-MoonPay, anunciada em 10 de fevereiro de 2026, exemplifica o modelo “crypto como add-on”: a empresa mantém estrutura tradicional de RH, compliance e contratos, e adiciona stablecoins como mais uma opção.
O trabalhador opta por receber parte ou todo o salário em stablecoins, enviados para carteiras digitais não-custodiais (onde o próprio trabalhador controla as chaves de acesso). O rollout começou em março de 2026 para Reino Unido e União Europeia, com expansão planejada para os Estados Unidos.
O modelo resolve um problema concreto: transferências salariais internacionais tradicionais levam de 3 a 5 dias úteis e passam por múltiplos intermediários bancários. Stablecoins oferecem liquidação quase instantânea, mas toda jurisdição trata a compensação em criptomoedas de forma diferente.
A MoonPay detém licenças regulatórias relevantes como a BitLicense de Nova York e autorização sob o MiCA (Markets in Crypto-Assets, arcabouço regulatório europeu para criptoativos), mas a responsabilidade de conformidade local continua recaindo sobre empregadores e trabalhadores.
A Deel não é a primeira a oferecer pagamento em cripto para trabalhadores remotos, plataformas como a Rise já operam payroll híbrido (moeda tradicional e criptomoedas) em mais de 190 países. A diferença é que a Deel chega com 40 mil clientes corporativos existentes, ou seja, a escala de distribuição é outra.
O bloqueio da privacidade e como está sendo resolvido
A objeção mais frequente de CFOs (Chief Financial Officers, diretores financeiros) sobre as stablecoins em folha de pagamento é a transparência forçada. Blockchains públicas funcionam como livros-caixa abertos e qualquer pessoa pode consultar quanto uma carteira recebeu. Para salários, isso é inaceitável: um concorrente poderia monitorar quanto cada executivo recebe, ou um funcionário poderia descobrir o salário de todos os colegas consultando endereços de carteira.
Em 29 de janeiro de 2026, Aleo, Toku e Paxos Labs lançaram a primeira solução que combina folha de pagamento global em stablecoins com privacidade por regra de design. A infraestrutura usa a rede Aleo, que implementa provas de conhecimento zero nativamente, por isso, as transações são verificadas pela rede sem que os dados subjacentes (valores, endereços) sejam revelados publicamente. A stablecoin utilizada é a USAD, emitida pela Paxos Labs e lastreada 1:1 pela USDG, stablecoin regulada da Paxos Trust Company.
A Toku processa mais de US$ 1 bilhão em volume anual de folha de pagamento em tokens, em mais de 100 países, com integração nativa a sistemas de gestão como ADP, Workday e SAP. Antes de lançar publicamente, as próprias equipes da Aleo e da Toku testaram o sistema pagando seus times distribuídos em três continentes. O rollout para clientes empresariais selecionados começou no primeiro trimestre de 2026.
Esse caso ilustra um padrão: a adoção corporativa da blockchain frequentemente depende da resolução de problemas que parecem técnicos mas são, na essência, humanos como o direito à confidencialidade salarial.
JPMorgan Kinexys: banco tradicional com infraestrutura blockchain
Na direção oposta da finança tradicional para a blockchain, o JPMorgan construiu a Kinexys (anteriormente chamada Onyx), uma unidade de negócios dedicada a soluções de pagamento e ativos digitais em blockchain. O JPM Coin é um deposit token, ou seja, uma representação digital de depósitos em dólar mantidos no JPMorgan.
Diferente de stablecoins emitidas por empresas não-bancárias, o JPM Coin representa um crédito direto contra depósitos bancários, combinando garantias regulatórias tradicionais com liquidação na blockchain.
Em janeiro de 2026, a Kinexys anunciou planos de emitir o JPM Coin nativamente na Canton Network, blockchain pública com privacidade integrada voltada para mercados financeiros regulados. Clientes institucionais como B2C2, Coinbase e Mastercard participaram de provas de conceito com sucesso, e a integração seguirá abordagem faseada ao longo de 2026.
Jamie Dimon, CEO do JPMorgan, declarou durante apresentação de resultados em julho de 2025 que o deposit token funciona essencialmente como uma stablecoin. A Kinexys acumulou mais de US$ 1,5 trilhão em valor nocional (valor total da posição de um título financeiro) processado desde sua criação, com crescimento de 10 vezes ano a ano em transações de pagamento.
O caso JPMorgan evidencia que a questão não é mais se bancos tradicionais usarão blockchain, mas como integram essa infraestrutura sem comprometer a compliance, a privacidade e a confiança regulatória que sustenta seu modelo de negócio.
O contexto brasileiro: PL 957/2025
No Brasil, o debate sobre remuneração em criptomoedas ganhou um marco legislativo. Em março de 2025, o deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP) apresentou o Projeto de Lei 957/2025 na Câmara dos Deputados, propondo alterar a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) para permitir pagamento parcial de salários em ativos virtuais, incluindo Bitcoin e stablecoins.
As regras: no mínimo 50% do salário deve ser pago em moeda fiduciária: reais. A conversão para criptomoedas segue a cotação oficial de instituição autorizada pelo Banco Central. Encargos trabalhistas e tributários são calculados sobre o valor total em reais. A proposta exige que empregadores ofereçam programas de educação financeira sobre ativos digitais. Prestadores autônomos podem receber 100% em cripto, desde que previsto em contrato.
O PL está em tramitação nas comissões da Câmara. Se aprovado, o Brasil se juntaria a países como Suíça e Japão, que já permitem formas de remuneração em criptomoedas. O projeto reflete uma realidade que já existe informalmente: dados da própria Deel de 2022 mostraram que a América Latina representava 52% dos saques em cripto da plataforma, e quase 10% dos saques salariais de contratos na África eram em criptomoedas.
O que ainda não se resolve com tecnologia
A convergência entre estrutura corporativa e infraestrutura blockchain gera ganhos e perdas que não se resolvem com código.
- O primeiro é fiscal: cada país trata compensação em criptomoedas de forma diferente, e uma empresa pagando equipes em 30 países precisa navegar 30 regimes tributários distintos para a parcela cripto. A Toku oferece compliance em mais de 100 países, mas a complexidade é transferida e não eliminada.
- O segundo é organizacional: a empresa que paga parte do time em stablecoins e parte em moeda local cria duas experiências de remuneração. Quem recebe em stablecoins acessa o salário instantaneamente e, em economias com alta inflação, preserva valor em dólar. Quem recebe exclusivamente em moeda local não tem essas opções. A flexibilidade cria assimetria.
- O terceiro é o da transparência versus privacidade. Mesmo com soluções como a da Aleo, a infraestrutura regulatória exige que autoridades possam auditar transações. Privacidade total é incompatível com compliance, e compliance total é incompatível com os princípios de descentralização que motivaram a criação de blockchains públicas.
Toda solução empresarial viável opera em algum ponto intermediário desse espectro. E há barreiras humanas que infraestrutura nenhuma resolve sozinha: literacia financeira sobre criptomoedas, confiança em sistemas sem suporte técnico tradicional, e a volatilidade emocional de ver o salário oscilar.
O espectro e não a fronteira
O que Deel, Toku, JPMorgan e Rise demonstram é que a dicotomia “empresa Web2 versus empresa Web3” não levará a evolução. O que existe é um espectro: de um lado, empresas cripto-nativas que adicionaram estrutura corporativa tradicional para operar em mercados regulados (Coinbase, listada na Nasdaq; Circle, emissora da USDC). Do outro, empresas tradicionais que adicionaram blockchain para funções onde a tecnologia oferece vantagem mensurável, velocidade de liquidação, programabilidade de pagamentos, acesso global sem intermediários bancários.
A maioria das empresas que opera com blockchain em 2026 está no meio desse espectro. A Deel usa blockchain para pagamentos, mas mantém contratos trabalhistas em infraestrutura jurídica tradicional. O JPMorgan usa blockchain para liquidação entre instituições, mas sua governança corporativa é tão centralizada quanto qualquer banco regulado. A pergunta que CFOs, CTOs e gestores precisam fazer não é “devemos ter iniciativas Web3”, e sim: para quais funções a infraestrutura descentralizada oferece vantagem real, e estamos preparados para os trade-offs?
A resposta certa ainda está sendo construída, por empresas que aceitaram operar com um pé em cada mundo, navegando entre compliance, regulatório e descentralização.
