Frutas rastreadas em dois segundos com a blockchain: entenda a tecnologia

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Walmart, De Beers e Maersk testaram blockchain para resolver problemas que nada têm a ver com criptomoedas. Entenda a tecnologia como infraestrutura de registro e rastreamento e tokenização

Em 2016, Frank Yiannas, vice-presidente da rede varejista Walmart, comprou um pacote de mangas fatiadas numa loja da rede e pediu à sua equipe uma tarefa simples: descubram de qual fazenda veio essa fruta. A equipe ligou para distribuidores, enviou e-mails a fornecedores, rastreou documentos em papel. Levou 6 dias, 18 horas e 26 minutos para chegar à resposta. 

Depois que o Walmart implementou um sistema de rastreabilidade baseado na blockchain, em parceria com a IBM, o mesmo rastreamento passou a levar 2,2 segundos. O caso estudado pela Hyperledger Foundation é um dos exemplos mais concretos do que a blockchain faz na prática e que não tem nada a ver com Bitcoin, criptomoedas, especulação ou tokens.

Na mesma década, a De Beers, maior produtora de diamantes do mundo, lançou a plataforma Tracr para registrar a jornada de cada pedra, da mina até a joalheria, usando blockchain. Até 2025, a plataforma acumulou mais de 3 milhões de diamantes registrados, com valor combinado superior a US$ 3,4 bilhões, conforme dados oficiais da Tracr e da consultoria Accenture, parceira tecnológica do projeto. 

E a Maersk, gigante do transporte marítimo, tentou fazer o mesmo para a logística global com a plataforma TradeLens, mas fracassou. 

Os três casos, juntos, revelam algo que raramente aparece nas manchetes sobre cripto: blockchain é, antes de tudo, uma tecnologia de registro e rastreamento. A transação financeira e a tokenização de ativos são apenas algumas das aplicações possíveis dessa infraestrutura.

  • O que a blockchain faz tecnicamente
  • Três casos reais: mangas, diamantes e contêineres
  • Por que funciona em alguns setores e fracassa em outros
  • Quando infraestrutura vira plataforma financeira

O livro-razão que ninguém controla sozinho

Antes de entrar nos casos, vale entender o que a blockchain faz em termos práticos. Imagine um livro de registros, como o livro-razão que empresas usam na contabilidade. Cada página registra transações: quem entregou o quê, quando, para quem. 

Num sistema tradicional, esse livro fica num único computador (o servidor da empresa, o sistema do banco, o banco de dados do governo). Se alguém alterar um registro, os outros participantes não têm como saber disso imediatamente. Se o servidor cai, o livro centralizado fica inacessível. Se houver fraude, a detecção depende de auditorias periódicas.

Já a blockchain muda as três partes dessa arquitetura:

  • Primeira: o livro não fica num único lugar. Cópias idênticas são mantidas ao mesmo tempo em múltiplos computadores chamados nós (nodes, em inglês). Se um nó sai do ar, os outros continuam funcionando, sem perder a visibilidade e o acesso à informação.
  • Segunda: cada novo registro, chamado de bloco, é ligado ao anterior através de funções criptográficas. Alterar um registro antigo exigiria reescrever toda a cadeia subsequente de dados, o que é computacionalmente inviável numa rede com muitos participantes.
  • Terceira: as regras sobre quem pode registrar o quê podem ser programadas automaticamente por contratos inteligentes (smart contracts) que funcionam como programas que executam condições predefinidas sem intervenção humana.

Na analogia mais simples: a blockchain é como um cartório digital distribuído. Mas em vez de um único tabelionato, existem centenas de cópias do livro, todas sincronizadas, e qualquer tentativa de adulterar um registro é detectada automaticamente pela rede. 

Essa arquitetura resolve um problema específico: como múltiplas organizações que não confiam completamente umas nas outras compartilham um registro único e confiável, sem depender de um intermediário central?

Walmart, da fazenda à prateleira em 2,2 segundos

O problema do Walmart não era teórico. Em 2018, um surto de E. coli em alfaces nos Estados Unidos forçou autoridades sanitárias a pedirem que todos os consumidores parassem de comer qualquer tipo de alface romana porque não sabiam de qual fazenda vinha a contaminação. 

O recall foi generalizado e caro justamente porque a cadeia de suprimentos não permitia rastrear a origem de um produto específico com rapidez. Documentos em papel, ligações entre distribuidores e planilhas de Excel formavam o sistema de rastreamento real da indústria alimentícia.

A solução que o Walmart desenvolveu com a IBM, batizada de IBM Food Trust, usa a Hyperledger Fabric, uma blockchain permissionada, onde apenas participantes autorizados (fazendas, distribuidores, transportadoras, lojas) podem gravar dados. 

Cada etapa da cadeia registra informações padronizadas: identificador do produto (código GS1, o padrão universal de códigos de barras), números de lote, datas de colheita, processamento e transporte. Esses dados ficam imutáveis uma vez registrados. Quando o Walmart precisa rastrear a origem de um pacote de mangas, o sistema percorre a cadeia de blocos e entrega a resposta em segundos.

Em 2019, o Walmart tornou obrigatória a adesão ao sistema para todos os fornecedores de verduras e folhosas. Mais de 200 fornecedores ingressaram na plataforma. O sistema expandiu para carnes, aves e outros alimentos frescos. 

Na China, a empresa implementou uma versão com o protocolo VeChain, onde consumidores podem escanear QR codes nas embalagens de produtos como carne suína e frangos para ver toda a jornada do alimento. Não existe token, não existe criptomoeda, não existe especulação. Existe um banco de dados distribuído que resolve um problema real: saber de onde vem o que você come.

De Beers, 3 milhões de diamantes com identidade digital

A indústria de diamantes enfrenta dois problemas antigos que a blockchain aborda diretamente: diamantes de conflito (extraídos em zonas de guerra para financiar grupos armados) e falsificação de procedência. 

Quando um consumidor compra um diamante em Nova York ou São Paulo, como saber se a pedra veio de uma mina regulamentada em Botsuana ou de uma operação ilícita? Historicamente, a resposta dependia de certificados em papel, facilmente falsificáveis, e de confiança na boa-fé dos intermediários.

A De Beers lançou a plataforma Tracr em 2018, em parceria com a consultoria Accenture, para atacar esse problema via blockchain. O sistema funciona assim: quando um diamante é extraído, ele recebe uma identidade digital única baseada em escaneamento físico de suas características (quilate, cor, claridade, corte). Essa identidade é registrada na blockchain. 

À medida que o diamante passa pela cadeia de lapidação, polimento, distribuição, venda, cada transferência é registrada on-chain. A plataforma usa Inteligência Artificial para comparar os escaneamentos feitos na mina com os feitos pelo fabricante, verificando que a pedra é a mesma e não foi substituída.

A partir de 2025, todos os diamantes acima de 1 quilate registrados no Tracr incluem país de origem específico, conforme anunciado pela De Beers. Antes, a informação indicava apenas “origem De Beers”, que podia significar Botsuana, Canadá, Namíbia ou África do Sul. 

Agora, avanços em escaneamento e algoritmos de IA permitem atribuir uma única procedência a cada pedra. O Tracr já tem mais de 3 milhões de diamantes registrados, com valor combinado de brutos e lapidados de US$ 3,4 bilhões, conforme dados da Accenture. Em 2024, a De Beers lançou o programa ORIGIN, que leva a rastreabilidade até o varejo, permitindo que joalherias ofereçam ao consumidor final a história completa da pedra.

Aqui, a blockchain resolve o mesmo tipo de problema que no Walmart: múltiplas organizações (mineradoras, lapidadoras, distribuidoras, joalherias) precisam compartilhar um registro confiável sobre a jornada de um objeto físico, sem depender de um único intermediário central. 

A tecnologia cria o que a De Beers chama de tamper-proof record, ou registro à prova de adulteração. Embora nenhum sistema seja absolutamente inviolável, a arquitetura distribuída da blockchain torna a fraude significativamente mais difícil do que num banco de dados centralizado tradicional.

Maersk, o fracasso que ensina mais que os sucessos

Se a blockchain resolve tão bem problemas de rastreabilidade, por que a Maersk como a maior empresa de transporte marítimo do mundo fracassou ao tentar aplicá-la à logística global? 

A plataforma TradeLens, desenvolvida em parceria com a IBM e lançada em 2018, prometia digitalizar o transporte marítimo: substituir documentos em papel como o Bill of Lading (conhecimento de embarque como um “passaporte” da carga), acelerar liberações aduaneiras e permitir que todos os participantes da cadeia como armadores, portos, despachantes, autoridades compartilhassem dados em tempo real.

Em números, o TradeLens não foi trivial: rastreou quase 4 bilhões de eventos, publicou mais de 36 milhões de documentos e processou mais de 70 milhões de contêineres, conforme dados da Transport Intelligence. Atraiu mais de 300 participantes e incorporou dados de mais de 600 portos e terminais. 

Mesmo assim, a Maersk e a IBM anunciaram o encerramento da plataforma em novembro de 2022. O motivo, segundo comunicado oficial da Maersk: “O TradeLens não atingiu o nível de viabilidade comercial necessário para continuar operando como negócio independente.”

O que deu errado é tão didático quanto o que deu certo nos outros casos. O TradeLens era co-propriedade da Maersk, liderando um projeto que dependia das empresas concorrentes na plataforma. Compartilhar dados comerciais sensíveis num sistema liderado pelo seu principal concorrente é pedir demais a qualquer empresa. 

Como observou Antony Miller, consultor de logística e cadeias de suprimento, citado pelo portal de notícias The Maritime Executive: “Em uma indústria onde ainda usamos planilhas tradicionais e compartilhamos dados via arquivos XML por e-mail, a blockchain realmente tem lugar? Talvez. Mas a aplicação precisa surgir naturalmente. Não construa um produto e espere que os clientes venham.”

A lição do TradeLens é fundamental para entender onde a blockchain funciona e onde não funciona. A tecnologia resolve o problema técnico de registro distribuído, mas não resolve o problema de confiança institucional e governança. 

No Walmart, a adesão era obrigatória para fornecedores porque a rede varejista tinha poder de mercado para impor o sistema. Na De Beers, a empresa controla grande parte da produção mundial de diamantes e abriu a plataforma gradualmente. Na Maersk, não havia incentivos, nem confiança dos concorrentes para colaborar. A tecnologia era viável, mas o modelo de negócio, não.

Quando múltiplas partes precisam de um registro único

Colocando os três casos lado a lado, um padrão emerge. A blockchain não é uma solução genérica para “melhorar qualquer processo”. 

A tecnologia resolve um problema específico: situações onde múltiplas organizações independentes precisam confiar num registro compartilhado, sem que nenhuma delas tenha controle total. Quando esse problema existe e há incentivos ou poder para garantir adesão, a blockchain funciona. Quando o problema é outro, como eficiência interna, por exemplo, a blockchain adiciona complexidade sem resolver o fundamental.

Na cadeia alimentícia, o problema é rastrear de onde vem um alimento contaminado antes que as pessoas adoeçam. Na indústria de diamantes, é provar que uma pedra não financiou conflitos armados. No transporte marítimo, era eliminar papelada e acelerar liberações aduaneiras. Os dois primeiros sobreviveram porque havia governança clara e incentivos alinhados. O terceiro morreu porque a governança era problemática e os incentivos, conflitantes.

É esse padrão que explica o próximo passo: usar blockchain não apenas para rastrear objetos físicos, mas para registrar e transferir propriedade de ativos financeiros. 

A tokenização torna um ativo físico em um registro digital na blockchain. A diferença é que o objeto é uma cota de fundo, um título de dívida ou uma fração de imóvel. E as regras de transferência podem ser automatizadas via contratos inteligentes que são códigos programados para agir conforme as regras: quem pode comprar, quando pode vender, como dividendos são pagos.

A tokenização de ativos como tendência

A transição do rastreamento para a tokenização fica clara com um exemplo concreto que aconteceu com o ouro. A Paxos Trust Company, regulada pelo OCC, regulador bancário federal dos EUA, criou o Pax Gold (PAXG), token onde cada unidade equivale a aproximadamente 31 gramas de ouro físico, armazenado em cofres da associação que certifica o padrão internacional de barras de ouro LBMA (London Bullion Market Association) em Londres. 

A lógica é a mesma do Tracr com diamantes: cada barra tem número de série, peso e pureza registrados na blockchain Ethereum, e o investidor pode verificar qual barra específica corresponde ao seu token. A diferença é que aqui o registro não apenas rastreia a jornada do ouro, ele também define propriedade. 

Quem tem o token, tem o ouro físico. Em março de 2026, o PAXG ultrapassou US$ 2,54 bilhão em capitalização de mercado, conforme dados do CoinMarketCap, e quem acumula 430 tokens pode resgatar uma barra física de ouro. Sim, ouro real pode ser entregue no endereço do proprietário.

A diferença prática da tokenização em relação ao rastreamento é justamente essa: o registro não apenas documenta a jornada de um objeto, ele define quem é dono. Isso abre possibilidades que sistemas de rastreamento não oferecem: fracionamento (dividir um ativo em milhares de partes negociáveis), negociação 24 horas (sem dependência de horários de bolsa), liquidação quase instantânea (minutos em vez de dias) e programação de regras automáticas (pagamento de dividendos, restrições de venda, verificação de compliance). 

No caso do Pax Gold, você pode comprar uma fração de onça troy (medida padrão do mercado internacional) a partir de US$ 20, algo impensável no mercado físico de ouro, onde barras de investimento começam em quilos.

No crédito imobiliário, a Figure Technologies levou a lógica mais longe. A empresa construiu a blockchain Provenance para originar, financiar e negociar empréstimos com garantia imobiliária diretamente na cadeia. Mais de US$ 19 bilhões em crédito imobiliário já foram originados na plataforma, conforme dados da própria empresa, que abriu capital na Nasdaq em 2025 sob o ticker FIGR. A Provenance não tokeniza o imóvel em si, tokeniza o contrato de empréstimo, permitindo que investidores institucionais comprem e vendam frações de carteiras de crédito com liquidação na blockchain. 

No Brasil, o mercado seguiu caminho parecido: movimentou aproximadamente R$ 4 bilhões em ativos tokenizados em 2025, crescimento de 207% em relação ao ano anterior, com mais de 60% das plataformas operando sob licenças da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), conforme o relatório Brazil Tokenization Report 2025 da Nexa e Fintrender. A concentração das emissões é em crédito e recebíveis, exatamente o tipo de ativo onde múltiplas partes (originador, investidor, custodiante, regulador) precisam de um registro compartilhado e confiável.

Onde a infraestrutura ainda falha

A metáfora do cartório digital tem limites importantes. Um cartório de verdade tem força jurídica: se o registro diz que você é dono de um imóvel, o Estado garante. Já a blockchain registra a propriedade digital, mas não substitui automaticamente o sistema jurídico. 

A lição do TradeLens da Maersk se aplica também aqui: a tecnologia não supera problemas de governança. No caso Walmart, quem garante que o fazendeiro registrou os dados corretos? A blockchain torna o registro imutável, mas não verifica se a informação original é verdadeira que é chamado de problema do “oracle” (oráculo) que faz a ponte entre o mundo físico e o digital. 

Se alguém registra dados falsos ou incorretos na entrada, a blockchain preserva os dados com a mesma fidelidade com que preservaria a verdade. A De Beers resolve isso parcialmente com escaneamento físico e a Inteligência Artificial trabalhando em conjunto, mas o desafio persiste para ativos menos padronizáveis que diamantes. O custo da tecnologia ainda é alto comparado ao modelo tradicional.

Outro problema é a fragmentação técnica. Existem dezenas de blockchains diferentes (Ethereum, Solana, Hyperledger, Tezos, entre outras), cada uma com suas características de velocidade, custo e segurança. Mover ativos entre redes, chamada de interoperabilidade, exige pontes tecnológicas que têm histórico de vulnerabilidades. 

É como se diferentes redes de cartórios usassem sistemas incompatíveis: o registro feito em um não é automaticamente reconhecido por outro. Essa fragmentação é a razão pela qual a maior gestora de fundos global BlackRock opera em nove blockchains simultaneamente como uma adaptação pragmática à ausência de um padrão universal.

E há a barreira humana. No Brasil, o relatório da Nexa identificou que o principal obstáculo à adoção em massa da tokenização é o baixo conhecimento do público, citado por 67% dos respondentes. Uma tecnologia pode ser sofisticada e resolver problemas reais, mas se as pessoas que precisam usá-la não entendem o que estão comprando ou como auditar, a adoção trava. 

Não é diferente do que aconteceu com o TradeLens: empresas de transporte menores viam o sistema como ameaça aos processos tradicionais e não como ferramenta de eficiência.

Infraestrutura e educação

A narrativa predominante sobre blockchain ainda oscila entre “vai mudar tudo” e “é solução que vai causar mais problemas”. Os casos citados sugerem algo mais específico: a blockchain funciona como infraestrutura quando múltiplas partes independentes precisam compartilhar registros confiáveis. 

Funciona para mangas e diamantes pela mesma razão que funciona para o ouro porque o problema central é o mesmo: rastrear, verificar e transferir informação entre organizações que não compartilham um sistema central.

Tokenização é a versão financeira dessa mesma lógica. Quando a Paxos transforma onça troy de ouro em tokens na Ethereum, a infraestrutura subjacente é a mesma que rastreia mangas no Walmart. A camada de aplicação é diferente, propriedade financeira em vez de rastreabilidade de alimentos, mas o mecanismo técnico que garante integridade do registro é idêntico.

Esse enquadramento importa porque muda a pergunta para profissionais de negócios. Em vez de “blockchain é o mundo cripto?” para “existe, no meu setor, um problema compartilhado entre múltiplas organizações que a blockchain resolve melhor que um banco de dados tradicional?”. Se a resposta for sim e se houver governança e incentivos para garantir adesão, a tecnologia tem caso de uso. Se não, é provável que um banco de dados convencional faça o mesmo trabalho com menos complexidade.

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