O que a edição brasileira do MERGE 2026 revelou sobre o futuro das finanças digitais no Brasil

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Tokenização, stablecoins e inteligência artificial dominaram os debates, mas o consenso inesperado foi outro: sem profissionais preparados, nada disso escala.

Entre os dias 17 e 19 de março de 2026, o World Trade Center de São Paulo recebeu o MERGE São Paulo, conferência internacional que reuniu mais de 200 palestrantes, 40 expositores e representantes de instituições como Banco Central do Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco, Visa, BTG Pactual, Banco do Brasil e BNDES, além de reguladores internacionais do Chile, Uruguai, Argentina e El Salvador. O evento se posicionou como ponte entre o sistema financeiro tradicional e o ecossistema Web3 na América Latina.

A cobertura da mídia especializada convergiu em três grandes eixos: tokenização como infraestrutura financeira, regulação como ferramenta de clareza institucional e a convergência entre inteligência artificial e blockchain. A Zayra esteve presente e acompanhou os debates que tocam diretamente as séries editoriais em andamento.

• Tokenização deixou de ser produto de nicho e foi tratada como base inovadora do sistema financeiro

• Drex recuou do blockchain após identificar imaturidade em soluções de privacidade nos testes

• IA e blockchain foram apresentadas como camadas complementares de transformação financeira

Tokenização: de experimento a infraestrutura

O tema dominante do MERGE foi a consolidação da tokenização como pilar da infraestrutura financeira brasileira. Conforme publicou a Livecoins, executivos de grandes bancos apontaram eficiência operacional e liquidez imediata como motores dessa mudança. O consenso foi direto: a criação de uma infraestrutura comum é o único caminho viável para evitar a fragmentação da liquidez e a criação de “ilhas” digitais que comprometeriam a eficiência sistêmica do país.

Paula Pascual, CEO e fundadora do MERGE, sintetizou a visão que emergiu dos painéis: o Brasil está mostrando que o futuro das finanças não é sobre possuir a infraestrutura, mas sobre construir melhores serviços sobre ela. Essa leitura conecta diretamente com a arquitetura do Pix, uma infraestrutura pública sobre a qual múltiplos serviços privados operam. A tokenização, nessa lógica, segue o mesmo modelo: trilhos compartilhados, serviços competitivos.

Stablecoins e Drex: caminhos que divergem

O painel “Tokenização do Dinheiro: CBDCs, Depósitos Tokenizados e o Futuro da Liquidez Digital” reuniu Bruno Grossi, head de ativos digitais do Inter, Jaime Pradenas Baeza, do Banco Central do Chile, e Nayam Hanashiro, da LNET. O diagnóstico de Grossi foi incisivo: o maior desafio do sistema financeiro atual é a fragmentação tecnológica, e a tokenização de dinheiro, processo que converte ativos financeiros em tokens digitais registrados na blockchain, pode funcionar como solução unificadora.

A Visa com a presença da Diretora de Crypto & Blockchain, Antônia Souza, e o VP de Novos Negócios, Eduardo Abreu, citaram as iniciativas nos painéis que participaram que o volume mensal de liquidação de stablecoins atingiu uma taxa anualizada de US$ 3,5 bilhões até 30 de novembro e que já conta com um programa de mais de 130 programas de cartões cobranded vinculados ao modelo.

Dado relevante para quem acompanha o blog da Zayra: o Drex, moeda digital do Banco Central do Brasil, recuou da blockchain após identificar imaturidade em soluções de privacidade durante os testes. Isso reforça um padrão: a tensão entre velocidade de inovação do setor privado (com stablecoins e tokens de depósito) e os trilhos institucionais públicos, que priorizam soberania digital e estabilidade financeira.

IA e blockchain: a convergência que muda o jogo

No painel “Como a IA Está Transformando as Finanças — De TradFi a DeFi”, João Paulo Aragão Pereira, especialista em IA e DeFi do Banco Inter, apresentou que sistemas baseados em multiagentes, ou seja, múltiplos programas de inteligência artificial que colaboram entre si, podem conectar Open Finance, Pix e investimentos numa única jornada automatizada. A implicação prática é significativa: a IA deixa de ser ferramenta de análise e passa a ser a camada de execução integrada ao sistema financeiro.

Denis Cavale, da BingX, trouxe uma leitura do padrão de resistência seguido de adaptação acelerada, observado com criptomoedas que agora se repete com IA aplicada a finanças. A melhoria na experiência do usuário, segundo ele, é o que impulsiona essa adoção com soluções que reduzem a complexidade e tornam ferramentas financeiras mais acessíveis.

O elo que foi dito sutilmente nos debates: educação

Infraestrutura, regulação, adoção institucional, os três pilares discutidos no MERGE são necessários, mas ainda insuficientes. 

Boa parte do que foi debatido pressupõe um mercado com profissionais preparados para operar nessas novas camadas: gestores que entendam tokenização, analistas que naveguem entre DeFi (finanças descentralizadas) e TradFi (finanças tradicionais), reguladores que compreendam a arquitetura técnica do que estão regulando e tomadores de decisão que tem confiança em aprovar iniciativas com as tecnologias emergentes. Sem isso, a infraestrutura existe mas não escala.

Esse é o ponto que a Zayra reforça como pilar: a massificação de ativos digitais depende diretamente de educação estruturada. Não tutoriais superficiais ou glossários de palavras-chave, mas formação que permita a profissionais de negócios, investidores e empreendedores tomar decisões informadas sobre tecnologias que estão redesenhando o sistema financeiro. 

O MERGE mostrou que o Brasil tem infraestrutura, tem regulação em evolução e tem apetite institucional. O que ainda falta construir, em escala, é o capital humano preparado para operar nesse novo ambiente.