Como a tokenização de empresas acelera o processo de captação e por que o modelo tradicional de rodadas tem custo e esforço altos demais para quem não pode esperar
Em dezembro de 2024, uma empresa de energia solar tocou a campainha da bolsa B3. Não era um IPO. Não havia bancos de investimento na sala, nem um road show de seis meses. Era a startup Saveon Energia e o que ela celebrava era ter captado seus recursos via tokenização, num processo que durou algumas semanas.
A cerimônia de toque de campainha na B3 é, historicamente, reservada para grandes empresas que abrem capital depois de anos de preparação, auditorias extensas e bilhões movimentados. Dessa vez, a câmera registrou algo diferente: fundadores de uma pequena-média empresa do setor de energia ao lado de André Sobreira e Ivano Westin, co-fundadores da Uinvex, plataforma que estruturou a operação. O investimento mínimo na oferta era de R$ 5 mil. A captação foi concluída em menos de seis semanas.
Oito meses depois, em agosto de 2025, a Blue Ventures, empresa imobiliária especializada em loteamentos residenciais, replicou a trajetória com a plataforma de investimento tokenizados Zuvia. Foram 551.000 tokens disponibilizados ao público, com aporte mínimo de R$ 25 e rendimento pré-fixado de 1,60% ao mês por 24 meses.
A captação primária fechou em 18 de agosto. Sete dias depois, os tokens já estavam disponíveis no mercado subsequente da B3 para quem quisesse negociar. Não havia fundo de VC (Venture Capital) na tabela de capitalização. Havia centenas de investidores que acreditaram na empresa com o dinheiro que tinham disponível.
Essas histórias não são exceção. Elas são o sinal de uma mudança estrutural no mercado de capitais brasileiro que ainda não chegou à maioria dos fundadores.
O QUE ESTE ARTIGO ABORDA
- Por que rodadas tradicionais têm fricção estrutural que não aparece nos slides de pitch
- Como a Resolução CVM 88 viabiliza captação tokenizada regulada
- O diferencial que nenhuma rodada de VC oferece
- Como a Zuvia estrutura operações tokenizadas com mercado subsequente integrado à B3
Por que o caminho de captação tradicional custa mais do que parece
O modelo tradicional de captação via rodadas de Venture Capital tem uma lógica própria e razões legítimas para existir.
Fundos assumem risco alto em empresas que podem não gerar receita por anos, e precisam de proteção proporcional: cláusulas de vesting (regras que definem quando o fundador consolida sua participação), antidiluição, preferência na liquidação (em caso de venda) e outros mecanismos jurídicos que protegem quem coloca capital em estágio inicial.
O problema é que esse modelo se tornou o caminho padrão para todo tipo de captação, incluindo empresas em diferentes estágios que já têm receita, produto validado e base de clientes real. Para esse perfil de empresa, o custo mais alto de uma rodada não aparece na distribuição do capital, aparece no calendário. Uma rodada seed ou pré-série A no Brasil costuma levar entre quatro e oito meses entre o primeiro contato com um fundo e o dinheiro na conta, considerando a auditoria detalhada da empresa (due diligence), negociação da proposta formal de investimento (term sheet), estruturação jurídica e fechamento. Isso quando fecha.
A concentração de poder de decisão em um ou dois sócios de fundo que nunca usaram seu produto cria uma lacuna que muitas vezes simplesmente não faz sentido para quem já provou que sabe executar.
Enquanto isso, a empresa precisa continuar operando, pagando profissionais, desenvolvendo o produto, enquanto espera o fluxo das negociações e as decisões avançarem. O custo de oportunidade desses meses de processo é real, mas raramente entra nos cálculos de quem compara modelos de captação.
Mesmo para empresas em estágio mais inicial, o tempo de captação e os modelos de investidores por Friends & Family (Amigos e familiares) e Anjos também é incerto. Uma decisão pode arruinar um plano de negócios, uma solução potencial para escalar e um grupo de fundadores dedicados para transformar tudo em uma empresa.
O que a tokenização muda e por que o timing é agora
A Resolução CVM nº 88 da Comissão de Valores Mobiliários, aprovada em 2022, criou no Brasil um regime de dispensa de registro que permite a empresas captarem recursos via crowdfunding de investimento, ou seja, por financiamento coletivo onde há múltiplos investidores fazendo aportes via plataformas digitais reguladas, sem a necessidade de abrir capital ou registrar uma oferta pública tradicional. Nasceu pensada para startups, mas rapidamente se tornou o motor de um mercado muito maior.
Em 2022, o volume captado via tokens de dívida nessas plataformas era de R$ 7 milhões. Em 2024, chegou a R$ 1,35 bilhão. Em 2025, as ofertas já ultrapassam R$ 2,2 bilhões com crescimento de 69% em relação ao ano anterior, conforme o Boletim Econômico da CVM do segundo trimestre de 2025.
Tokens de dívida, que são certificados de recebíveis em formato digital registrados na blockchain, responderam por mais de 90% dessas captações em 2024, segundo análise publicada com base em dados da CVM. Não é experimento. É um mercado em expansão acelerada.
Quando uma empresa pode captar? Pela regulação no momento da publicação do artigo, o teto é de R$ 15 milhões por ano via oferta de crowdfunding, sendo que o faturamento bruto anual da empresa deve ser de até R$ 40 milhões. A empresa pode optar pelo modelo de equity crowdfunding, abrindo participação societária para múltiplos investidores, ou por tokens de dívida, quando há rendimento pré-fixado sem diluição do controle.
O que esse formato muda na prática para um fundador? Três coisas concretas:
- Primeiro, velocidade: onde uma rodada leva meses, uma captação tokenizada pode ser estruturada em semanas e uma oferta primária fechada em dias.
- Segundo, acesso: em vez de depender de um ou dois decisores institucionais, a empresa abre sua oferta para centenas ou milhares de investidores pessoa física com tickets acessíveis.
Terceiro, atrair fãs: nenhuma rodada tradicional consegue replicar esse diferencial que é a possibilidade de transformar quem já acredita na sua marca em co-investidor.
Sua empresa tem clientes que recomendam seu produto, parceiros que apostam no crescimento, seguidores que acompanham cada lançamento. Com a tokenização via CVM 88, você pode convidar essas pessoas a investirem em você, com rendimento pré-definido, liquidez para sair antes do vencimento e ticket a partir de R$ 25.
Nenhuma rodada de VC faz isso. O fundo investe apesar de não te conhecer tão bem. Os fãs da sua marca investem porque já te conhecem.
Cases da B3 e como a Zuvia estrutura a tokenização
A Zuvia é uma plataforma de crowdfunding de investimentos registrada na Resolução CVM 88, especializada em estruturar e distribuir tokens de dívida para empresas que querem captar de forma regulada. Em 2025, formalizou parceria com a B3 para oferecer mercado subsequente, ou seja, liquidez real para investidores que queiram negociar seus tokens antes do vencimento, com liquidação via Pix e rastreabilidade completa na blockchain.
No case da Blue Ventures, empresa do setor imobiliário, foram disponibilizados 551.000 tokens a R$ 25 cada, com rendimento pré-fixado de 1,60% ao mês por 24 meses. Sete dias depois da oferta primária, os tokens estavam no mercado subsequente da B3.
O processo do lado da empresa emissora envolveu: análise de elegibilidade e modelo de negócio, estruturação do ativo com definição de prazo e rendimento, preparação de documentação exigida pela CVM, aprovação da oferta e distribuição para a base de investidores.
A B3 fornece a infraestrutura tecnológica de tokenização e o ambiente de negociação enquanto a Zuvia cuida do relacionamento com a empresa e com os investidores ao longo de toda a operação.
Outras plataformas autorizadas pela CVM atuam nesse segmento como Kria, EqSeed, Bloxs, CapTable com focos setoriais distintos. A escolha depende do perfil da empresa e do instrumento: equity crowdfunding (diluição de participação) ou dívida tokenizada (captação com rendimento, sem abrir mão do controle societário).
O que esse modelo não resolve e por que você precisa saber antes
Captar R$ 2 milhões via tokenização pode ser relativamente simples para uma empresa com tração comprovada, base de clientes ativa e modelo de receita previsível. Para uma empresa inicial, sem histórico financeiro documentado ou com mercado endereçável pequeno, o mesmo instrumento pode ser frustrante: a oferta depende de mobilizar múltiplos investidores, e isso exige que haja confiança real no negócio antes de a captação começar.
A Resolução CVM 88 exige que a captação atinja pelo menos dois terços do valor-alvo para ser efetivada. Se esse piso não for alcançado, os recursos são devolvidos aos investidores e a oferta é cancelada.
Diferente de uma rodada de VC, onde um único fundo pode cobrir o volume inteiro, no crowdfunding de investimento, o sucesso depende de mobilização. Empresa sem comunidade, sem base de clientes engajada ou sem narrativa clara para um investidor de varejo vai encontrar o mesmo obstáculo que encontraria em qualquer outra forma de captação: a necessidade de convencer.
Três perguntas ajudam a avaliar se o momento é certo:
- Você tem uma base de pessoas (clientes, parceiros, seguidores) que já acredita no que você constrói?
- Seu modelo de negócio gera, ou tem previsão clara de gerar, receita no horizonte do título?
- Você consegue explicar a tese da sua empresa de forma compreensível para quem não é especialista no seu setor?
Três respostas positivas colocam a tokenização via CVM 88 como opção viável. Uma ou mais respostas negativas não descartam o caminho, mas indicam que há trabalho de preparação a fazer antes de abrir a oferta.
Tokenização não substitui rodadas de VC quando o que a empresa precisa é de smart money, conexões estratégicas ou governança ativa de um fundo experiente. São instrumentos diferentes para objetivos diferentes.
O que mudou na estrutura é que o fundador agora tem escolha real. E não precisa mais esperar meses por uma resposta de um comitê que nunca vai ter a perspectiva de quem já usa seu produto todo dia.
A campainha existe para quem decide apertar
Naquele dia, em dezembro de 2024, o que estava sendo celebrado na sede da B3 não era só uma operação financeira. Era a evidência de que o acesso ao mercado de capitais brasileiro mudou de forma irreversível.
Uma empresa de energia solar, seus fundadores, centenas de investidores, tokens registrados na blockchain e negociáveis via Pix, dentro da mesma infraestrutura que movimenta trilhões por ano.
A regulação existe. A tecnologia está sendo testada. Os cases são verificáveis. O que ainda separa a maioria dos fundadores dessa possibilidade não é burocracia, é o desconhecimento de que essa rota já funciona.
Você tem pessoas que já acreditam no que você está construindo. A pergunta que fica: o que você está esperando para transformar essa possibilidade em capital?
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