Web Summit Rio 2026 comparado com as edições passadas

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De um palco dedicado a cripto em 2023 ao casamento entre inteligência artificial e ativos digitais: o que a programação revela sobre a maturação do mercado e o papel da educação.

Em maio de 2023, em um palco batizado de Crypto Stage no Riocentro, Daniel Vogel, cofundador e CEO da exchange Bitso, apresentou um número que resume a tensão entre o sistema financeiro tradicional e o descentralizado: as transações transfronteiriças da empresa entre Estados Unidos e México saltaram de US$ 1 bilhão em 2021 para US$ 3,3 bilhões em 2022, conforme registro oficial da própria Web Summit. 

Mais de 5% de todas as remessas nesse corredor já passavam por cripto. Ou seja, trilhos descentralizados começavam a competir, em volume, com a infraestrutura bancária tradicional e não como promessa, mas como utilidade real.

Aquele palco existia porque a primeira edição latino-americana do Web Summit — o maior evento de tecnologia e inovação do mundo — já tratava a camada da internet construída sobre redes sem um dono central como tema de programação oficial. 

Três anos depois, com a edição carioca realizada em 8 a 11 de junho de 2026 no mesmo Riocentro, vale revisitar o que essas edições efetivamente discutiram. A Zayra esteve lá, expondo no dia 10 de junho, no espaço Alpha 4, e parte do nosso interesse foi entender como o debate amadureceu.

  • Em três edições, o eixo da descentralização migrou de “o inverno cripto vai acabar?” para infraestrutura, regulação e tokenização.
  • A inteligência artificial passou de tema pervasivo (2023) a assunto central, cada vez mais cruzado com a pauta de ativos digitais.
  • A maturação do mercado deslocou a conversa do hype para a formação de quem precisa tomar decisões.

Uma feira onde bancos, startups e reguladores dividem o mesmo corredor

O Web Summit nasceu em Dublin em 2009 e hoje reúne centenas de milhares de pessoas por ano em edições espalhadas pelo mundo. A versão carioca foi a primeira fora da Europa. 

Os números ajudam a dimensionar a escala: a estreia, de 1º a 4 de maio de 2023, teve mais de 21 mil participantes, 400 palestrantes, 974 startups e 507 investidores, segundo balanço oficial. Em 2024 (15 a 18 de abril), o evento se tornou o de crescimento mais rápido da história do Web Summit, com mais de 34 mil pessoas de 102 países. Em 2025 (27 a 30 de abril), bateu recorde de startups: 1.397, entre cerca de 34 mil participantes.

Pense no Web Summit como uma feira onde convivem, lado a lado, bancos, startups, reguladores e artistas. Isso não difere muito de quando a internet comercial surgiu nos anos 1990 e setores que não conversavam passaram a dividir o mesmo espaço. 

É nesse caldo que a descentralização aparece, ora como ameaça ao modelo vigente, ora como infraestrutura complementar.

2023: a ressaca honesta e o Brasil como possível novo endereço

O tom da estreia era de reconhecimento de falhas. Kathleen Breitman, cofundadora da Tezos, descreveu uma indústria “humilhada” que precisava de um chamado à realidade depois de escândalos, citando o colapso da Terra Luna, que classificou como esquema Ponzi, e a quebra da FTX. 

Não era discurso evangelista; era exatamente o tipo de honestidade que costuma faltar em palcos de tecnologia, e que vale mais como aprendizado do que casos de sucesso.

Ao mesmo tempo, o país aparecia como candidato a novo endereço do setor. Sandra Ro, CEO do Global Blockchain Business Council (conselho global de negócios em blockchain), destacou que reguladores brasileiros já trabalhavam havia anos em partes distintas do ecossistema cripto. 

Marcelo Sampaio, cofundador e CEO da Hashdex, argumentou que a robustez da gestão de risco do sistema financeiro brasileiro tornaria improvável um caso como o da FTX por aqui. A leitura, em resumo: a vantagem do Brasil não estaria na euforia, mas na maturidade regulatória.

A inteligência artificial, mesmo em 2023, já era onipresente e dividia o palco. Meredith Whittaker, presidente do Signal, foi dura ao classificar sistemas como o ChatGPT como pouco confiáveis para produzir fatos verificáveis. 

Do outro lado, o CEO do GitHub, Thomas Dohmke, construiu um aplicativo ao vivo durante a palestra usando IA. A ativista Chelsea Manning costurou os dois mundos ao discutir privacidade, IA e Web3 numa mesma conversa, defendendo que tecnólogos sejam cobrados por padrões éticos comparáveis aos de médicos. 

O benefício da automação convivia, ali, com o risco de injetar informação não verificada na infraestrutura que usamos para nos informar.

2024 e 2025: da especulação para a infraestrutura

Nas edições seguintes, o vocabulário mudou. Em 2024, uma das sessões se chamava “Bitcoin, Ethereum e a jornada das cripto rumo a ativo de proteção” como sinal de que a conversa migrava de especulação para reserva de valor. 

Subiram ao palco nomes como Monica Long, presidente da Ripple, e Mike Brock, então à frente da TBD, braço de identidade e pagamentos descentralizados da Block. 

A pergunta deixava de ser “vale a pena comprar cripto?” para discutir infraestrutura: identidade, pagamentos, liquidação. A IA, por sua vez, estava “em todo lugar”, segundo o balanço oficial do evento, ao lado de tokenização que são iniciativas de registro de ativos do mundo real em blockchain para torná-los negociáveis digitalmente (Se quiser saber mais sobre o tema, leia este artigo).

Em 2025, com recorde de startups, a aproximação entre IA e ativos digitais virou pano de fundo recorrente. A lógica por trás disso é direta: à medida que a IA torna mais barato fabricar texto, imagem e identidade falsos, cresce o interesse por mecanismos de verificação e proveniência, terreno em que a infraestrutura descentralizada tem algo a oferecer. 

É uma iniciativa em desenvolvimento e teste, não uma solução pronta, mas o processo iniciou como a premissa: tornar possível, útil e viável, com mais segurança, transparência e confiabilidade.

O que um palco do Web Summit não prova

Convém um cuidado: palco de conferência não é termômetro de adoção. Eventos amplificam o otimismo e selecionam quem tem boas histórias para contar. 

Que um tema apareça no Riocentro não significa que ele já reorganizou a economia real. Cripto e tokenização seguem pequenas diante do tamanho do sistema financeiro tradicional. Boa parte das promessas de 2021 não se concretizou, ainda está em construção. E boa parte dessa evolução depende não apenas de infraestrutura, mas também de conhecimento e educação para que a adoção seja consciente e propositiva.

A presença das falhas no palco (Terra, FTX) é, aliás, mais informativa do que a dos sucessos: mostra um setor aprendendo em público, com prejuízos reais para quem entrou sem entender os trade-offs.

A pergunta da vez é, no fundo, sobre quem precisa entendê-la

O fio que costura as três edições talvez seja menos a tecnologia e mais o deslocamento de quem precisa compreendê-la. Em 2023, a pergunta dominante era “o inverno cripto vai acabar?”. Em 2025, era “como integrar ativos digitais, pagamentos e IA sem repetir os erros?”. A segunda exige um profissional diferente: alguém de negócios, produto ou estratégia capaz de avaliar trade-offs, não de torcer por uma tendência ou modismo. 

É essa lacuna, entre o tomador de decisão e o jargão, que transforma a maturação do mercado em uma questão de educação, e é com esse interesse declarado que a Zayra acompanhou a edição de 2026.

Fica a provocação: se 2023 perguntou se o inverno acabaria e 2025 perguntou como integrar IA e ativos digitais, qual foi a pergunta que a edição de 2026 deixou no ar?